O significado de Maia Ferreira para a História da Literatura Angolana

Como citar (norma Chicago):
Soares, Francisco. “O significado de Maia Ferreira para a História da Literatura Angolana.” Kicola: livros e leitores em Angola no século XIX. Editado por FS. FS. 2020. https://kicola.xn--svisto-bxa.com/p/o-significado-de-maia-ferreira-para.html (acedido em 28 de jul de 2022)


O caso de que vou falar está sempre envolto em polémica e desconhecimento. Aliás a polémica, muitas vezes, é fruto só da ignorância, ou da má vontade fermentada em conhecimentos cujos limites suportam a distorção.

Durante muitos anos era tema pioneiro mas logo bolorento, quase exótico, apenas abordando-se pouco mais do que o nome do poeta, com menção (depreciativa no geral) ao título da obra. Só conforme se passou pela investigação revigorada sobre a época, bem como pela reflexão criativa e crítica em torno da história angolana e atlântica, da história da literatura e da história da escravatura, dos portos e povoações adjacentes, do mundo lusógrafo tropical e da hibridação cultural, só após essas operações pudemos repensar a personagem, a literatura e a biografia de Maia Ferreira no quadro das rotas em que circulara. Esse foi o quadro em que a sua pessoa ganhou forma e se tornou produtiva. Nele, ou articulado com ele, teremos a considerar ainda a sua longa estada nos EUA (14 anos?), as articulações (literárias também) com uma semiosfera anglófona, o mal conhecido regresso solitário ao Brasil, onde faleceu, com cerca de 40 anos. 

Em parte as polémicas derivavam do escasso conhecimento, como disse. A falta de conhecimento era, também, consequência de disputas ideológicas e de combates étnicos antecipados, que à partida condenavam os seus obstinados a dizer isto ou aquilo, fossem quais fossem os factos. O texto literário servia só de pretexto para continuar 'a luta' por outros meios. É preciso, no entanto, compreendermos que a própria biografia, poesia e pensamento do autor proporcionavam combustível para a fogueira na medida em que, se fossem conhecidos, ainda seriam lacunares e, por vezes, contraditórios - o que é típico da existência humana, que por isso mesmo procura coerência. Passemos, então, a reler os que nos trouxeram considerações e pesquisas válidas e deixemos na poeira os contendores.

No prefácio à última reedição das Espontaneidades (em suporte papel), Salvato Trigo propôs uma das suas inteligentes e bem organizadas análises, desmontando, incisivamente, várias leituras e tentativas de colocação-deslocação do poeta. Pode-se dizer que, depois da leitura do seu texto, caem por terra quase todas as interpretações anteriores (excetuo a de Carlos Pacheco). O problema vem a seguir, quando o ilustre professor expõe a sua hipótese.

Para suportar a sua própria colocação, Trigo separa, com precisão de bisturi, duas ‘classes’ sociais: 1) uma burguesia já nascida e criada em Angola, mas muito ligada a Portugal e Brasil pela sua formação cultural; 2) um segmento crioulo, mais africano ou africanizado, para cuja formação foi determinantevivência local. À partida, a colocação de Maia Ferreira ficaria na primeira ‘classe’ e, dentro dela, seria considerado, por Salvato Trigo, como português. 

A colocação me coloca várias dúvidas e desde logo a equivalência (além de jurídica) de uma burguesia já nascida e criada em Angola a "portugueses", por estarem os seus membros muito ligados a Portugal e Brasil (que tipo de ligações? Como se identificava essa burguesia face a Portugal e Brasil? Os seus membros tinham realmente uma cultura portuguesa ou brasileira?). A segunda diz respeito à própria divisão: o segmento crioulo e a burguesia local eram classes ou grupos ou famílias diferentes? Ou essa burguesia se ligava mais a Portugal e Brasil na medida em que tinha poder económico para isso? Outra dúvida está, precisamente, em saber se essa burguesia, já nascida e criada em Angola, constituindo uma elite local e com raízes culturais e genéticas também bantos, podia estar ligada a quaisquer outros espaços políticos, em pleno império colonial português, alternando com o surgimento do império brasileiro não colonial. A seguir, fica-nos uma suspeita: por qual motivo, sendo portuguesa essa burguesia e sendo portugueses os seus membros, ela ficava mais ligada ao Brasil que a Portugal, em vez de se ligar apenas ao suposto país de origem? Mas ainda me fica outra dúvida: os membros dessa elite local eram necessariamente portugueses pela sua formação cultural? Por terem negócios com o Brasil e Portugal? Por terem família em um desses países, mesmo que só o Brasil? E, quando esse parentesco português ou brasileiro era já distante, mas a elite se mantinha em tudo o resto, continuavam a ser portugueses? Veremos brevemente que a família de Maia Ferreira, sobretudo por parte da sua mãe, remonta pelo menos a meados do século XVII em Angola - no que diz respeito aos ascendentes portugueses. 

Se se trata de uma burguesia nascida e criada, vejamos onde podíamos colocar os ascendentes do poeta nessa dicotomia, hoje, que já conhecemos um tanto melhor a história da sua formação enquanto 'classe'. Pela parte materna, ele filia-se em famílias que, nos ascendentes conhecidos (i.e., com registos escritos mais recuados), integravam pessoas nascidas em Luanda e outras oriundas dos Açores e do Portugal europeu, que se instalaram em Angola, pelo menos, a partir de meados do século XVII, sendo a respetiva descendência sempre natural de Luanda e episodicamente se misturando com algum reinol. Os ascendentes mais recuados que o biógrafo do poeta conseguiu definir foram Inácio Matoso de Andrade (os seus apelidos se manteriam, tal qual, até pelo menos o fim do século XIX) e Luísa de [Mendonça?] Bettencourt, que se casaram em Luanda em "meados do séc. XVII". Os filhos, Francisco e Ana, misturando-se com famílias instaladas em Luanda (cuja origem remota se desconhece, em parte pelo menos), inseriram-se nas redes familiares que, em vários casos, ocuparam e ocupam a cena social, económica e política de Angola até hoje. Nessa extensa malha genealógica vamos encontrar apelidos, para além dos já citados, como São Miguel (que vem de um capitão espanhol e de uma angolana do começo do século XVII), Prates da Vide, Castro, Carvalho e Menezes, Correia das Necessidades, Matoso de Andrade (ramo que se ligou aos Coutinho, Queirós Coutinho e aos Câmara, bem como aos Pinheiro Falcão), Queirós Coutinho (apelido que passou ao Brasil), Câmara ou Andrade Câmara (que também passou ao Brasil), Militão (que parcialmente passou ao Brasil), Gago da Câmara, Botelho de Vasconcelos, Medeiros, Jesus Sequeço (apelido de origem italiana - Génova no caso - que perdurou depois de o primeiro Sequeço em Angola se ter casado com uma filha da terra (Máxima Correia das Necessidades, em 1765)), Esquiasse, Brito Pita e Pita só.

Os ascendentes paternos, além do apelido Maia Ferreira, entre nós oriundo de São Martinho de Guimarães[1] – então (segunda metade do século XVIII) Bispado do Porto – e de Gaia, incluíam gerações de naturais com os apelidos “de Jesus” (o avô reinol de Maia Ferreira, seu homónimo como o pai, casou com Ana Maria de Jesus, natural de Luanda, em Luanda, a 7.1.1798), Botelho de Vasconcelos, Fonseca Guimarães, Viana, Francisco Regadas (Francisco figurando como apelido) – este último o ramo talvez mais saliente e os dois últimos passando parcialmente ao Brasil a partir de Angola. É por este ramo que Maia Ferreira tem mais ascendência genética portuguesa, reinol.

Talvez por tudo isso, em dois momentos só da sua vida (quanto saibamos, e nos EUA), surge um nome completo para o poeta, no segundo caso não sei se por ironia apenas: José da Silva Maia Ferreira Medeiros Matoso de Andrade Câmara (Rougle, 1991 p. 187). Note-se que a constituição do nome junta os apelidos do pai com os da mãe, somando-se “de Andrade Câmara”, que não surge no registo de casamento dos pais (Pacheco, 1990 pp. 44-45). D.ª Ângela (sua mãe), no entanto, aparece como “Mattozo d’Andrade” (sem Medeiros nem Câmara) no registo de batismo do poeta (Pacheco, 1990 p. 251) e no registo de entrada no Rio de Janeiro em 1834. Possivelmente ela tinha mesmo todos esses apelidos e só transcreviam parte, como era comum na época.

Se investigarmos até onde as fontes o permitem, como fez Carlos Pacheco, deparamos com uma rede familiar cujo cordão umbilical está em Luanda, como já disse, desde, pelo menos, o meio do século XVII, e que depois se espalhou para o Brasil, eventualmente algum ramo retornando a Portugal (o que desconheço). Vemos também que a mesma rede familiar esteve na origem de alguns dos mais recorrentes e significativos apelidos angolenses, que se iam mesclando com recém-chegados e entre si. E que tinha ascendentes portugueses a par de ascendentes locais de origem banto, mesclada com os outros.

Como classificá-los naquela dicotomia? Não sei, talvez como inqualificáveis. Uma burguesia sem dúvida muito ligada a Portugal e Brasil, mas porque eram pessoas de poder e dinheiro, cujos negócios mantinham tal ligação, dado o controlo exercido pelo reino português sobre as suas colónias (um controlo comercial e marítimo, para além de político). No entanto os seus membros (incluindo os ascendentes mais próximos de Maia Ferreira) formaram-se em Luanda, ali nasceram e se tornaram adultos(as) e procriaram e criaram os filhos. Os apelidos que foram registando eram os mesmos de figuras que nos parecem preencher a segunda ‘classe’ de que fala Salvato Trigo, um segmento mais crioulo e mais ligado a África, mais africano. Como, portanto, reduzir essas famílias às ligações ao Brasil e Portugal depois de estarem ‘no terreno’, pelo menos, duzentos e cinquenta a trezentos anos e misturando-se com outros filhos da terra, ou filhas da terra? Como dizer que, para eles, a vivência local não foi determinante, não foi africana? Ou que a mestiçagem cultural e biológica não africanizava a ascendência genética e familiar 'europeia'? Ou que os seus negócios e propriedades, além da convivência diária geração a geração, no interior e em Luanda, ao longo de tantos anos, os não assimilaram também profundamente a uma das suas origens, aquela que não possuía registos escritos? E os casos – quase todos – de famílias em que alguns nunca saíram da colónia e outros saíram por motivos e tempos vários mas curtos? E os ramos da família do poeta nunca tiveram membros seus - à época - fora do território hoje angolano? A sua própria mãe, que parece ter sido analfabeta, só saiu de Angola já adulta (o poeta contava sete anos de idade) e, como era próprio da época, seguindo o marido, que também nascera e se criara em Luanda, com ascendência 'branca' e 'mestiça'. Seriam mesmo portugueses? Não eram africanos? As culturas africanas pré- e para-coloniais não os marcaram? Duvido. São exemplos típicos de famílias que, por preencherem os requisitos de ambas as alíneas propostas por Salvato Trigo, levantam a questão da sua pertinência na história local. As duas alíneas propostas por Salvato Trigo me parecem mais os dois extremos do mesmo grupo social do que duas ‘classes’, uma africana e outra portuguesa.

Vista a família, que em parte o acompanhou no Brasil e em outra parte o acompanhou em Angola, passemos ao próprio Maia Ferreira e à sua poesia.

Ao longo da análise dos poemas, o arguto crítico foi comentando-os no sentido de nos mostrar que faltava ao poeta essa vivência mais africana – do que, desde logo, suspeitava pela própria biografia: saído menino ainda para o Rio de Janeiro, onde estudou até aos 11 anos, de onde foi para Lisboa estudar de 5 anos. Acho, no entanto, que a vivência africana está nos seus versos e vou mostrar porque penso assim. Mas, por agora, pergunto-me: qual o nosso escritor da primeira metade do século XIX em que se percebe mais essa vivência do que nele (salvaguardas diferenças impostas pelos géneros discursivos praticados)? Carvalho e Menezes? Falaremos do polemista e ensaísta, que tinha um discurso ambivalente, afirmando-se português e nunca assumindo afinidades 'indígenas' (pelo seu estatuto social, o que também tem que ser levado em conta no caso de Maia Ferreira), embora solidário com todos os filhos da terra. Note-se que Joaquim António de Carvalho e Menezes era considerado uma das figuras patrológicas dos angolenses no século XIX. É preciso pensarmos também nos efeitos sobre o poeta da vivência em Luanda e Benguela, entre 1845 (com, portanto, 18 anos) e 1851. Recorde-se que lhe nasceu em Luanda uma filha, havida com Faustina Maria do Amaral, luandense de famílias antigas, e recorde-se que a filha morreu em Benguela muito nova. Como referiu Pacheco, há versos que parecem falar-nos disso mesmo. Vou comentá-los ainda nestas linhas. Entretanto recorde-se, também, que esteve envolvido com filhos de Angola, tanto quanto se sabe mestiços, que denunciaram (como ele) a corrupção de negociantes e governantes portugueses. Recordemos, por fim, as paixões que teve ali e a fuga, por causa incógnita, apressada, por um porto livre, para os Estados Unidos. 

Talvez uma vivência mais acentuada se desse no caso de não ter havido a permanência no Brasil, entre 1834 e 1845, no seio de uma família africana e cortada por quase cinco anos em Lisboa, onde terá estudado no Lycée Parisien, que publicou dois bons desenhos seus em litografia (indicando que era aluno), de resto sintomáticos: o primeiro, do Imperador D. Pedro I, do Brasil; o segundo de uma casa com telhado de colmo, pequena, pobre, com reboco muito grosseiro, na margem de um rio modesto e que se chama «Estudo de Paysagem»[2]. De facto, acabou residindo em Angola apenas nos primeiros sete anos de vida e, depois, apenas em mais seis anos, entrecortados por, pelo menos, duas idas ao Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro viveu cerca de nove anos e em Lisboa cerca de cinco. O resto da vida foi quase só em Nova Iorque, embora com intermitências também, mas onde casou (com uma norte-americana), criou descendência (norte-americana) e se afirmou como homem adulto. Seria norte-americano? Porque não quis nunca ser? Portugalidade? Brasilidade? Porque foi dado como "africano" ao morrer e se autoclassificava como africano (português ou não)?

Mas esses dados biográficos, ainda que sejam significativos literariamente, não podem simplesmente colar-se à obra para classificá-la como portuguesa, até mesmo porque a obra surge em 1849-1850, quando ele residia em Luanda e Benguela. 

O caso é que as suas opções literárias o encaminhavam para um cânone – genológico e lexical – que o afastava da exibição de vivências locais e, por opção própria, não explorava o exótico. É uma verdade que não voltou à sua terra após a partida para Nova Iorque, mas manteve contactos, correspondência, negócios e continuou tendo família na colónia. Numa das cartas ao negreiro e negociante Avelar, disponíveis em acesso aberto na Torre do Tombo, manifesta alegria com a possibilidade de voltar a ver Angola e uns olhos negros que aqui deixou. Isso chegou a ser interpretado como sinal de que ele falava em escravos, o que não faz sentido, sendo só desculpável para quem nada sabe sobre ele e sobre a poesia que publicou. Também só regressou ao Brasil pouco antes de morrer[3] (e lá manteve contactos, correspondência, família). Finalmente, foi a Lisboa (onde manteve contactos e correspondência) penso que duas ou três vezes (depois de sair de Angola), por pouco tempo – ou seja: esteve menos vezes e menos tempo em Lisboa do que em Havana, por exemplo. Quando esteve, foi tentando que o nomeassem, primeiro, cônsul-geral, e, antes ainda, que lhe reconhecessem o cargo de “chanceler com honras de vice-cônsul”[4], ou mesmo o cargo de Vice-cônsul[5] de Portugal em Nova Iorque, exercido interinamente por indicação e pagamento do padrinho de seu filho[6]. Nas insistentes tentativas de nomeação para um cargo - que, sem dúvida, lhe trazia vantagens e prestígio - tentou novamente ser cônsul-geral e isso o levou novamente a Portugal, onde se deslocou quatro vezes, segundo William Rougle: Dezembro de 1856, Setembro de 1857, Maio e Setembro de 1858  (Rougle, 1991 p. 188) - ou teria ficado lá de Maio a Setembro? Com o tempo que demoravam as viagens e as despesas que implicavam, me parece mais provável que tenha havido só três viagens, uma em cada ano... pesquisa posterior há de esclarecer isto. 

Estranhamente, nenhuma tentativa resultou, mesmo movendo influências significativas como as de António de Serpa, Casal Ribeiro e José Horta. É curioso ver, em todas as cartas dele que li, quando se afirma português - ele, que era oficialmente um súbdito lusitano. Uma das vezes ao escrever ao seu amigo Casal Ribeiro, garantindo-lhe que sempre o seria – num momento em que lutava ainda pelo cargo de cônsul-geral, ou se lamentava ao amigo por não tê-lo conseguido. Praticamente a mesma frase (“sou, e sempre serei Portuguez”, como se isso estivesse em causa) escrevera em carta a António de Serpa, alguns meses antes, ao pedir-lhe intervenção a seu favor para a nomeação como Cônsul-geral e certamente o fez antes, quando António de Serpa se ofereceu para tentar, junto ao Marquês de Loulé, “um hábito de Christo ou Conceição” – igualmente não conseguido. 

Apesar da sua afirmação como português aos dois amigos influentes (o segundo um conhecimento mais distante) inquiriu também, nos EUA, sobre a hipótese de ser vice-cônsul de Portugal e do Brasil – ou seja: dos dois países de língua oficial portuguesa. A pretensão ao consulado do Brasil era relativa a Boston e as suas tentativas devem datar do meio do ano de 1854, sendo simultâneas à pretensão relativa a Portugal – esta, aliás, um tudo-nada posterior. Nesse ano de 1854 ficou Maia Ferreira sabendo, em outubro, que “Mr. Foster”, pelo que o próprio lhe disse, “em virtude também dos seus poucos meios não podia desistir do Consulado Brasileiro”[7] – o que fez cair a pretensão ‘brasileira’ ao Consulado. 

Os contactos feitos para o consulado brasileiro (em Boston) vieram de outra ponta do seu círculo de amizades. Ali como em todo o lado, a rede de contactos do poeta não se resumiu somente aos comerciantes portugueses (alguns deles com negócios em Angola, Brasil, Congo, Cabinda e Costa do Ouro), estendendo-se a norte-americanos e a representantes ou simples súbditos do império brasileiro, como Carvalho Moreira e Antonino Falcão, de quem falarei mais à frente. 

Isso tudo nos indica ser Maia Ferreira típica personagem da burguesia luandense, nem banto nem europeia, etnicamente ou culturalmente falando. O império português era constituído por pequenas ilhas culturais e de poder e de comércio, muitas vezes geridas (na prática) localmente, servindo o reino como ponto longínquo de apoio e de armamento ou reforço militar. As famílias burguesas que se firmavam nesses espaços, acumulando poder económico, entravam nas rotas do império (que tentava manter os portos fechados a navios estrangeiros, mas abriu vários a partir de 1808) e, se possível, acasalavam com famílias famosas ou poderosas nesses outros portos. Entre as colónias e feitorias é claro que se destacavam, por esta ordem, Portugal (a sede), o Brasil (a colónia principal, sobretudo depois da redução do 'império' asiático a meia dúzia de portos e hinterland), Angola (o fornecedor de mão de obra gratuita - embora não só, mas principalmente). O comércio mais intenso, por causas várias, era com o Brasil, em se tratando da burguesia angolana. Portanto, quando alguma família angolana ganhava poder económico instalava-se parcialmente no Brasil, enviava os filhos para lá estudar, ou transferia-se mesmo para a colónia do outro lado do grande lago atlântico. Veja-se, por exemplo, o caso de Dª Ana Joaquina dos Santos (que não sei onde colocaria Salvato Trigo naquela sua dualidade), que teve casa no Recife, onde acrescentou "e Silva" ao seu nome original. Os membros dessas famílias - poucos - que, como Maia Ferreira, saíam da estrita rota atlântica portuguesa, ou lusófona, socorriam-se naturalmente de contactos trazidos de Angola, Brasil e Portugal. Sendo poucos os de Angola, que era sobretudo fornecedora de escravos, o socorro e o apoio vinham de portugueses e de brasileiros. Em geral, de portugueses e brasileiros relacionados com os dois países, por negócios, famílias, vivências. Era este, como disse, o caso de Maia Ferreira: um angolense que, nos EUA, se socorria de brasileiros e de portugueses (por ordem alfabética). 

Por isso ele tentou ser cônsul de ambos os países. O seu maior apoio 'português' nos EUA foi o de uma família cosmopolita: os Figanière e Morão, também Stuart. Frederico Francisco Stuart de Figanière e Morão (o Stuart vinha da mãe, inglesa), nascido no mesmo ano do nosso poeta e seu amigo e convivente em Nova Iorque, escrevia livros em francês e inglês, além do português. Joaquim César de Figanière e Morão, seu pai (de cujo nome tirou Maia Ferreira o do seu próprio primogénito), nasceu no mesmo ano em que o avô do poeta se casou em Luanda com Ana Maria de Jesus. Ele foi ministro de Portugal no Rio de Janeiro e membro da comissão mista luso-britânica na Serra Leoa, de que nos deixou livro com descrição do lugar e narração dos trabalhos aí realizados. Ambos, o filho e o pai, tinham fortes ligações comerciais, culturais e económicas no Brasil e ligações, embora menos intensas, com África ocidental. Ambos foram maçons (e terão levado o poeta para a maçonaria em Nova Iorque), sendo o filho Francisco nome de referência para muitos esotéricos até hoje no Brasil. Outro dos irmãos - Guilherme - tornou-se cidadão dos EUA...

Isto confirma o que venho dizendo: que, naturalmente, os membros dessas burguesias intermédias das colónias, em saindo fora do berço, ligavam-se aos membros das elites de Portugal e do Brasil e de preferência aos que lhes dessem ou reforçassem acesso a ambos os países. Foi o que fez Maia Ferreira e, por isso, podemos sentir-nos tentados a dizer que ele era 'português' (porque não 'brasileiro'?) e não 'africano' - adjetivo com que se definiu até à morte. Mas isso implicará ignorar a forte componente brasileira, quer na sua família, quer na sua formação, quer nos seus contactos e ignorar - o que é mais grave - a autodefinição do poeta enquanto "africano", acrescentasse ou não "português" como segundo qualificador - o que era legalmente. No entanto ele não deixava de ser, nesse meio, o "africano" - como ele próprio reafirma, até em carta. A sua formação como pessoa não deixou de fazer-se no seio de uma família africana, luandense especificamente. Mesmo no Brasil.

As correspondências que previa publicar em jornais brasileiros também não testemunham o seu portuguesismo, nem o contrário disso, nelas assume-se apenas como alguém residindo em Nova Iorque e informado sobre Cuba, sem declarar nacionalidade e mostrando paixão política relativamente aos acontecimentos locais (dos EUA e de Cuba). Numa das primeiras “correspondências”, inclusivamente, refere um dramático motivo (que não determina) que o levou a não ser brasileiro – e não foi porque se sentisse português:

 

[…] sobra-me bastante cabedal de desejos de ser útil a um País onde vivi uma boa parte da mª mocidade – por quem tenho recordações, e recordações saudosas; e, que se não foram circunstâncias penosas, inevitáveis, e talvez fatídicas, bem quisera havel-a adoptado como Patria![8]

Difícil identificar como português a pessoa que redigia esta confissão. Pelo contrário, é uma confissão típica de alguém que sabe que podia ser uma coisa ou outra, à sua escolha. De resto ele próprio confessava, na carta a Casal Ribeiro (datada de 16.8.1861 e localizando-o em “Peckshill, 42 milhas de New York” – para onde a mulher fora residir com as irmãs em uma das separações do casal), que, ao contrário do que sucedia com o Brasil (onde manteve sempre amigos e família, tanto quanto em Angola), “de há muito não recebo notícias de ninguém de Lxª”. Portanto, mesmo os portugueses com que negociava, ou simplesmente se correspondia, alguns amigos dos tempos de estudo, escreviam-lhe do Brasil e de Angola, mas não de Portugal ou de Lisboa, cidade e país onde se queixa de lhe terem feito “acusações caluniosas”, a que não pôde retorquir (afinal o fizera, por carta, julgando que tinha esclarecido tudo) por não estar lá e que se prendiam com a luta pela substituição de Figanière[9] e, mais tarde, com a substituição do novo cônsul, Tomás Ribeiro dos Santos[10], que lhe era adverso. 

É também verdade que terá regressado à ‘África Negra’ só mais a norte (Gâmbia talvez, Bissau, Cabo Verde – a julgar pelo que diz Carlos Pacheco e pela correspondência guardada no ANTT), a título de encarregado de negócios, aliás mal conhecidos – alguns envolvendo-o no tráfico negreiro e em favor de outrem (César Figainère – como aparece no timbre das primeiras folhas da empresa – ou Figanière, como aparece em toda a restante documentação de sócios do seu filho ou próximos das empresas dele, como Avelar e Reis), em um só momento constando o seu nome numa lista de investidores (investia seis escravos). Mais do que isso: sentia-se feliz por o seu primeiro filho com Margareth Butler (“belo como um anjo e inteligente como um norte-americano” – apesar de só ter um ano[11]) ser um autêntico yankee, conforme expressou numa carta, ao mesmo tempo que "o nosso africano", como expressou em outra carta (para a mulher, Margaret Butler). Essa foi a nacionalidade com a qual ele mostrou entusiasmo, apesar de não se reconhecer nela. Percebia que o futuro estava na velocidade e ambição daquele país dinâmico, em franco progresso, embora desigual (o que também o incomodava).

O que se nos mostra aqui é uma personalidade fluída, maleável, identificando-se em constante mutação de acordo com as ocasiões e os interesses[12], exceto num único aspeto: classifica-se a si próprio como africano até ao fim da vida, seja o adjetivo acompanhado ou não de português: “africano português”, como se definiu no poema «O Exilado», previsivelmente escrito na viagem que o levou para os EUA, ou nela inspirado, e que João d’Aboim lhe publicou em O Peneireiro, em 1855, um mês depois de sair na Marmota fluminense; ou só “africano”, como nas planejadas Memórias íntimas d’um africano e como ficou registado na certidão de óbito: “nação – africana (Pacheco, 1996 p. 52) e na notícia de falecimento que a resume. Fá-lo como também muitos brasileiros, durante muito tempo (até 1822), se autorreferiam americanos portugueses ou, menos vezes, só americanos. Foi, por exemplo, o caso de Elias Alexandre da Silva Correa, que escreveu a segunda História de Angola de que temos notícia; foi, também, o caso de Domingos Borges de Barros (1779-1855), Visconde da Pedra Branca, ele próprio poeta (considerado justamente pré-romântico e, aliás, com livro dedicado às “senhoras brasileiras” (Barros, 1825)), anunciado no Diário de Pernambuco (em 1840) e alto servidor do Império brasileiro (além de Deputado liberal português até à independência do Brasil), de mais intensa convivência portuguesa e europeia que Maia Ferreira, quer na literatura, quer na vida pessoal. Ainda foi caso próximo o de Caetano Lopes de Moura, excecional e polémico editor do Cancioneiro de D. Dinis e de Os Lusíadas, bem como terá chegado a preparar e anotar o "poema épico África, de Petrarca"

Se o duplo epíteto (“africano português”) nos aproxima de uma autoqualificação, mutatis mutandis, típica também do Brasil, a instabilidade das identificações encontramo-la (e encontrava-a ele próprio) muitas vezes na que chamamos hoje ‘África negra’. Como afirmou Terence Ranger, num ensaio muito centrado sobre as zonas de colonização inglesa, “longe de existir uma identidade ‘tribal’ única [na África pré-colonial], a maioria dos africanos assumia ou rejeitava identidades múltiplas”, sobretudo usando “redes superpostas de associação e permuta”, cuja área de jurisdição podia ser bem mais extensa que a de um reino ou chefia tradicional (Ranger, 1997 p. 255). Esta mobilidade identitária, que desconcertava as autoridades coloniais, era também usada pela elite luandense, excetuados os reinóis. As famílias locais, articuladas com genealogias portuguesas e outras da terra, ora sublinhavam uma, ora outra genealogia, conforme a conveniência de momento. A identificação, como outros procedimentos, era um jogo de simulações adotado na medida em que se mantivesse producente. O que não quer dizer que não houvesse uma identificação visceral, uma autoimagem que se mantinha minimamente constante ao longo da vida. Isso mesmo é o que vemos na reafirmação do sujeito Maia Ferreira como “africano”.

Em resumo, se é verdade o que lembra Salvato Trigo sobre o tempo escasso em que o poeta viveu em Angola, também o mesmo argumento pode ser usado para o desligar do Brasil e, mais ainda, de Portugal, onde só residiu quatro ou cinco anos e para estudar. Ou seja, o argumento permite somente não o colocar em lugar algum… E é mesmo isso: desde que se lhe cortou o cordão umbilical, com a saída de Luanda, ele terá percebido que não tinha identidade fixa, com correspondência político-institucional, e que podia jogar com várias identidades conforme as suas conveniências. O que fez Carvalho e Menezes, nome patrológico para Joaquim Dias Cordeiro da Mata (um ‘crioulo africano’ segundo a classificação de Salvato Trigo), foi muito parecido – menos no que diz respeito aos EUA, onde não sei se alguma vez esteve.

Na linha de argumentação seguida por Salvato Trigo, o país onde viveu mais anos (sendo já adulto) e onde casou, teve filhos, negociou, tentou afirmar-se, esse país se chamava Estados Unidos da América. Mas, entretanto, não o consideramos um poeta norteamericano e ele, de resto, afirma que não quis naturalizar-se (o que podia ser mais uma das suas simulações, ou podia ser verdade). Muito menos os norte-americanos, que nem deram por ele, o consideraram um poeta dos USA. De resto, lá mesmo ele planejava escrever as suas memórias, melhor, as Memórias íntimas d’um africano… O que tem significação definitiva para o tema da sua identidade pessoal, a meu ver e face aos dados que retenho. 

Talvez tudo se esclareça melhor se ainda houver, escondida, alguma parte do espólio, por exemplo na família brasileira. Será que nessa parte ele esclarece a sua relação com o tráfico de escravos? A relação tormentosa com a mulher, de cujas posses em parte ele próprio dependeu em certo momento, incluindo a casa onde residiam? Outras relações anteriores aparecem ali referidas, como a que teve em Luanda e que lhe deu uma filha falecida em Benguela? Será que nos confessa o que se passou em Luanda, acontecimento nunca esclarecido e tão grave que a maior parte da família – incluindo o fiel cunhado J. J. da Cruz Forte – o desprezou por anos? Será a sua verdade demasiado forte para que nos mantenhamos interessados em compreendê-lo?

De qualquer modo, mesmo aceitando a dicotomia social escandida por Salvato Trigo, é preciso fazermos estudos comparados e, por óbvios motivos biográficos, neste caso comparando com o próprio Brasil. É que no Brasil podíamos aplicar a mesma dicotomia (com resultados idênticos) e ela, depois da independência, não excluía nenhuma das categorias da identidade brasileira, como se vê pelo já citado caso do Visconde da Pedra Branca e de vários outros poetas brasileiros. Aliás, a vigilância comparativa nos acompanhará constantemente ao longo destas páginas.

Mas a fronteira social estabelecida por Salvato Trigo, não só pelo que já aduzi, não terá tido, na época, uma real correspondência no terreno. Tal como disse, parece-me que se trata mais de duas pontas do mesmo tecido social e antropológico do que de duas classes, ou dois grupos sociais distintos, ainda menos duas identidades. Seria difícil, por exemplo, classificar Joaquim António de Carvalho e Menezes, Manuel Patrício Correia de Castro (familiarmente ligado aos Matoso da Câmara) e Joaquim Luiz Bastos como crioulos (na aceção de Salvato Trigo, não na minha) e mais difícil ainda como portugueses. 

O percurso de J. A. de Carvalho e Menezes é sintomático. Ele foi, também, uma personagem vivendo entre Angola, Portugal e Brasil (acrescentando-se Moçambique em vez de EUA e Cuba). O seu envolvimento com Portugal foi mais forte que o de Maia Ferreira. Recorde-se que foi deputado às Cortes de Lisboa, eleito por Angola a 7.4.1839 (cinco anos depois de Maia Ferreira chegar ao Rio de Janeiro). Nessa altura integrou a Associação Marítima e Colonial, fundada em Lisboa no mesmo ano (entre outros por Joaquim César Figanière e Morão). Foi proposto pelo “Sr. Cecilia Kol, Secretário da Secção do Ultramar”, a 18.1.1841 e aprovado logo na sessão seguinte (1.2.1841). Nesse mesmo ano, 1841, tentou novamente a exclusividade na exploração do ouro em Angola, que já tentara em 1839 (a pretensão foi negada por exceder os limites da lei vigente, segundo parecer de 8.10.1841). Desempenhou o cargo de Escrivão Deputado da Junta Real da Fazenda do Reino de Angola, ficando por isso habilitado a usar “uniformes de Coronel do Estado-Maior do Exército” enquanto a nomeação durasse (foi exonerado em 1844). Desempenhara o mesmo cargo em Moçambique, onde procurou desmontar uma rede de influências e se insurgiu contra o Governador “e Capitão General” João da Costa de Brito Sanches, que denunciou ao Rei e de que rejeitou uma “declaração” (Sanches, 1822) no Correio do Rio de Janeiro (Correspondência, 1822). Note-se que ele residia nessa cidade então (1.8.1822), partindo depois para Lisboa, onde saudou as Cortes Extraordinárias, reunidas para a sessão de 30.10.1822 (Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes, 1822 p. 934), ao mesmo tempo que uma parte da família materna de Maia Ferreira apelava aos angolenses para se ligarem ao Brasil. Carvalho e Menezes ainda morou no Rio de Janeiro nos últimos anos de vida (facto corroborado por Inocêncio), onde faleceu, morto à paulada (por motivos políticos) segundo o historiador Carlos Pacheco. Em 1851, por exemplo, fez um requerimento, no Rio de Janeiro, “solicitando exame censório para a peça: Jenny, a bordadeira”, que um seu filho teria traduzido. Nunca, tanto quanto saibamos, optou nem tentou optar por outra nacionalidade.

Ainda mais que ele se considerou português Manuel Patrício Correia de Castro, membro (pelo Clero) da primeira Junta ou Governo provisório vintista em Luanda, Deputado constituinte às citadas Cortes, apelando aos angolanos, em 1822, para não se deixarem iludir com o projeto da ‘Confederação Brasílica’, pois isso apenas interessava a 'interesses particulares' dos seus opositores, em particular Eusébio de Queirós Coutinho da Silva, pai do ministro brasileiro Eusébio de Queirós. Manuel Patrício ou Carvalho e Menezes eram, no entanto, africanos, além disso mestiços tanto quanto José da Silva Maia Ferreira (ou mais notoriamente mestiços), criados em Angola num meio local (recorde-se que J. A. Carvalho e Menezes era neto de uma escrava, que de resto veio a herdar e libertar), apenas realizando os estudos finais no Brasil e, talvez, em Portugal. 

Parece-me, portanto, que a definição daqueles dois segmentos de Salvato Trigo deixa por resolver o problema da identificação dos protagonistas da nossa comunidade literária, antes o confunde mais. Humildemente penso que precisamos de trabalhar melhor o conceito de crioulo, com outras áreas disciplinares incluídas, e de não o retalharmos em categorias a que, por definição, ele escapa. Estes três autores eram, para mim, crioulos angolanos ou, quando menos, angolenses – e, portanto, africanos.

Procurei definir, em A autobiografia lírica de M. António e em outros textos, o que se podia chamar de crioulo. A partir das constantes abstraídas de vários contextos históricos e geográficos em que surge o termo (incluindo o da burguesia intermédia angolense que Mário António estudou), ou seu equivalente, o crioulo definiu-se para mim como uma personalidade de fronteira, integrada muitas vezes numa sociedade ela própria largamente preenchida com personagens transitivas. Penso em uma personalidade cuja formação, crescimento e perfil derivam da constante readaptação de traços culturais de origem diversa à realidade circundante, que pode variar, apropriados esses traços em função dessa realidade e captados pela perceção de uma semiosfera globalizante, englobante, ela também instável. Uma tal personalidade ganha, por isso, autonomia desde muito cedo, recriando-se a si própria em função dos contextos em que se encontra envolvida e, simultaneamente, guardando uma memória de si que a identifica, ao mesmo tempo que a localiza, porque se repercute no percurso variado que percorreu (Ricoeur, 1990), onde o seu ‘fantasma’, ou a sua recordação, reavivam a linha de continuidade que impede a ruptura psicológica, a fragmentação total dentro do «ego». 

No nosso caso, nesse aspeto igual ao de muitos países americanos e vários asiáticos e europeus, um crioulo é qualquer personalidade assim formada e, comummente mas não obrigatoriamente nem completamente, formada fora do território ou do berço social de, pelo menos, uma parte da sua família. Por exemplo, em Luanda, um filho de pai ou de mãe mucongo com pai ou mãe cuanhama – ou luandense; um filho de pai ou mãe portugueses e de pai ou mãe lunda em Benguela – ou benguelense. Ou o filho de mãe francesa e avó negra sul-americana na França de Napoleão, ou, por fim, um descendente de abissínios e russos educado na cultura afrancesada da aristocracia de São Petersburgo na primeira metade do século XIX – justamente aquela metade em que foi educado José da Silva Maia Ferreira. Nesta aceção, tanto Maia Ferreira quanto Carvalho e Menezes, ou Correia de Castro, foram crioulos e os três se formaram e transformaram dentro e fora da árvore genealógica e do berço social. Mas os três se fizeram pessoas em Luanda.

A sua importância, tanto quanto o seu significado no processo de formação de um sistema literário próprio em Angola, seriam, nesta perspetiva, iguais: os três, criticados ou aceites, ainda que mal conhecidos hoje, fizeram parte da nossa memória cultural urbana ao longo dos séculos XIX e XX e como filhos da terra culturalmente produtivos. Integraram a nossa semiosfera urbana, que procurava localizar-se positivamente no espectro colonial, agindo e escrevendo para abrir ou manter espaço de manobra real. E também contribuíram para alargar o nosso horizonte de expectativas literárias. Além disso, para a época, não temos qualquer outro contributo literário que possa contrastar com a sua colocação. Se, já no último quartel do século XIX, Alfredo Troni - crítico do poeta - ainda confessou que ouvia falar com garbo do autor das Espontaneidades, é porque elas circulavam com algum prestígio na nossa memória escrita e oral, africana crioula e portuguesa, enfim, na nossa memória urbana e litorânea desse tempo. Dado assaz curioso era o de que não se encontrasse já em Luanda o seu livro, ou não lh’o emprestassem, o que era natural numa cidade onde ele próprio não pagava ao alfaiate. Mas não foi só Troni, também no seu Jornal de Loanda Ladislau Batalha fez uma crítica às Espontaneidades, estranhando-as por adotarem uma escola literária oposta e esquecendo, sintomaticamente, que o nosso poeta nasceu no ano seguinte ao de Soares de Passos, no mesmo ano de Gomes de Amorim e quase vinte anos antes de Antero de Quental e de Pinheiro Chagas. Estranhou-as, criticou-as e, assim, comprovou que elas eram lidas no meio local, que delas e do seu autor guardava memória ativa. Por seu turno, o protonacionalista José de Fontes Pereira conheceu Maia Ferreira (mais novo que ele quatro anos, foram ainda colegas enquanto funcionários da administração colonial, pelo menos em 1846[13]) e publicou também uma recensão às Espontaneidades, a que não tive acesso. Então, mais uma vez, elas ainda circulavam pela nossa memória coletiva urbana.

Pelo acima dito é que entendo que, relidos hoje, os seus textos ilustram o conceito de crioulização, ou de hibridação cultural, aplicado à história da formação da comunidade literária angolana, atravessada pelas caravanas interiores e exteriores ao sertão africano – algumas delas (e não menos importantes) caravanas marítimas. Em particular a lírica de Maia Ferreira, publicada no começo de 1850 (data provável), é própria das personalidades híbridas e tropicais do seu tempo, quer circulassem entre grupos de portugueses, ou de brasileiros, ou de angolanos residentes, ou em dois deles, ou nos três ao mesmo tempo, já que andavam misturados e isso foi mesmo o mais provável. O definir-se português, ou brasileiro, ou africano tinha, nesse tempo, um significado diferente do que tem hoje e podia, muitas vezes, depender apenas das oportunidades que abrisse (ainda hoje, também, quantos não pedem uma nacionalidade pelas vantagens que ela lhes traz?). Agora, sublinhe-se: Maia Ferreira tipifica, junto com outros, uma das personalidades crioulas do seu tempo e do seu espaço umbilical – a colónia de Angola, em África, no meio do século XIX, tempo em que ele aí foi literariamente mais produtivo.

Por todas estas razões me centro, de momento, no poeta luandense, embora sem me fechar sobre ele. O que leu e o que escreveu até publicar o seu e nosso livro terão sido importantes referências para nós, pelo menos algumas delas, em Angola, na segunda metade do século XIX. Não ponho em causa o amor de Maia Ferreira, “o mais mesquinho cantor d’África adusta” (Ferreira, 1849), “à minha terra”, nem acho que isso interfira grandemente com o tipo e o objetivo das minhas investigações neste livro. Há quem o acuse de falta de nacionalismo, de ausência de referências visíveis a Angola, povos e costumes angolanos, etc., como faz com muito maior refinamento Salvato Trigo no aludido prefácio. Não me parece que tenhamos verdade suficiente para isso, como disse e passo a examinar através do livro prefaciado pelo arguto estudioso português - cujo contributo foi decisivo para o arranque, sob orientação disciplinar apropriada, dos estudos literários africanos em Portugal. Mas a presença local de Maia Ferreira na nossa memória cultural torna obrigatória a sua presença nesta pesquisa. Aliás, incontornável. Ela nos diz muito sobre leituras que se podiam fazer em Angola a meio do século XIX.

Comecemos por revisitar as intertextualizações imediatas do poema, tão discutido, «A minha terra» - praticamente a composição com que se iniciam as Espontaneidades da minha alma. São pontos que, num extenso mapa literário, localizam com nitidez o poeta, pela relação da sua situação com a dos textos citados ou aludidos. A primeira hipótese de leitura será, precisamente, esta: o poema é uma fala num diálogo definidamente estabelecido pela enunciação e pelas intertextualizações imediatas.

Logo a seguir ao título se faz uma sugestão de cenário enunciativo, típica da época: “no álbum do meu amigo” – neste caso, o amigo é João de Aboim.

João Correa Ma­nuel d'Aboim, que nasceu em 1814 e faleceu em Setúbal em 1861, foi jornalista (redator de O Peneireiro, em Lisboa, depois do Correio de Setúbal, entre vários outros títulos nos quais colaborou, ou que redigiu), dramaturgo e poeta com muitos livros publicados[14]. En­tre eles encontramos um (O livro da minha alma) onde Jo­sé da Silva Maia Ferreira foi buscar a prin­cipal inspiração pa­ra o título das Espontaneidades da minha alma ((Oliveira, 1990 p. 309ss); (Ferreira, 1980 p. XX)). Recorde-se que João d'Aboim, quando viveu no Brasil, conviveu com Maia Ferreira e Gonçalves Dias[15]. Alguns autores calculam que lá terá vivido muitos anos, o que nos interessa saber – quantos anos e quais. Podemos tentar agora balizar essa cronologia com mais precisão, para a relacionarmos com a do nosso poeta.

Se houvesse vivido muitos anos no Brasil (se fosse um colono ou emigrante português aí residente, como supõe Moser), seria (não impossível, mas) es­tra­nho que João d'Aboim tivesse publicado em Lisboa um livro seu em 1842 (será que nessa al­tura ainda não estava no Brasil?) e que, em O Li­vro da minha Alma, surja um poema, datado de 1848, em que ele se despede dos amigos à partida para o Brasil. É possível que só nes­sa data (1848) fosse para lá pela primeira vez, em consequência de pro­blemas po­lí­ti­cos, co­mo sugere a carta de Gonçalves Dias inserida no início da obra. Fonte mais precisa nos assegura, aliás, que terá partido de Lisboa a 2.8.1848, após uma rixa por motivos políticos, ocorrida no dia de S. João de 1848 (Pato, 1894 p. 128). Ainda em reforço desta hipótese, há também um artigo do próprio João d’Aboim, colocado n’O Peneireiro, em que responde a várias acusações, entre elas a de ter ido para o Bra­sil em 1846, o que nega. No entanto, em 1854 já publica Os meus úl­ti­mos ver­sos em Lisboa, sen­do a aventura de O Peneireiro (1855) posterior ao seu re­gresso a Portugal (d'Aboim, 1855 p. 126). Segundo Bulhão Pato, amigo também de Maia Ferreira, ele regressou do Brasil no Verão (português) de 1851 (Pato, 1894 p. 129). Sendo assim, viveu três anos na capital carioca.

Estas possibilidades alteram a visão das coisas a que as des­cobertas antes feitas nos podiam induzir. Se José da Silva Maia Ferreira estudou em Portugal e daí partiu em 1844 (nos primeiros meses), tendo convivido em Lisboa com amigos de Bulhão Pato e de João d’Aboim (como Casal Ribeiro, Ricardo Guimarães, José Horta, Luís Augusto Palmeirim), é natural que tivesse sido em Portugal que Maia Ferreira e d'Aboim se conhecessem. Quer tenha sido assim, quer não, João d’Aboim e Maia Ferreira coincidiram pouco tempo no Brasil, pois o nosso poeta regressa a última vez para Angola em 1849. Devem ter convivido entre 1848 e 1849, datas que também coincidem com a primeira publicação de poemas por Maia Ferreira, vinda à luz por intermédio justamente de João d'Aboim. O mais importante, porém, é registarmos aqui que essa amizade literária passava obrigatoria­mente pelos três países e pelos três poetas. Aliás, por dois poemas que fazem o intertexto do nosso: a famosa «Canção do Exílio» de Gonçalves Dias e a resposta que lhe deu João d’Aboim no seu livro ‘brasileiro’.

No poema das Espontaneidades, a seguir à sugestão do cenário enunciativo, coloca-se em epígrafe uns versos, em francês, do nosso luandense:
.........................................
Recevez donc mon hymne, ó mon pays natal,
Et offrez-le de bon coeur à qui sut bien chanter
La riante nature du beau Portugal.
(Do author.) 
O quadro enunciativo fica, portanto, completo: o poema é, na ficção enunciativa da epígrafe, entregue ao “meu país natal” com o pedido de que o seu país o ofereça, de bom coração, ao que soube cantar “a risonha natureza do belo Portugal.” Esse interlocutor do poeta, no álbum de quem o poema se coloca, por sua vez, escrevera outro poema com saudades do seu país natal, ao qual «A minha terra» responde. A estrutura subjacente, como no de Maia Ferreira, era a da «Canção do Exílio» de Gonçalves Dias. Há, portanto, um triângulo romântico, intertextual e incontornável aqui, ligando Angola, Brasil e Portugal. É a partir dele, como da situação enunciativa sugerida e da própria filiação veiculada explicitamente nos versos, que se deve ler o poema, para perceber o diálogo travado então, que lhe condiciona o sentido inicial (o final determinamos nós, os leitores, a cada vez que lemos). Esse diálogo, repita-se, é o de um angolano falando na sua terra em contraposição a um português e um brasileiro. Explicitamente se dirige ao português e também isso vai condicionar a semiose específica dos seus versos.

A turvação desta leitura veio de mal-entendidos antigos. Desde os escritos de Moser e de Manuel Ferreira sobre o assunto que se estabeleceu uma interpretação consensual que, hoje, vemos não ter fundamento. Isso é comum na história da crítica literária em geral e na nossa em particular, dados os anacronismos ideológicos e partidários que nos distorceram tantas vezes a visão, como também graças à dificuldade em encontrarmos documentos esclarecedores. Terá sido, mesmo, o escasso conhecimento que havia sobre a época e o autor o que, inicialmente, sustentou mal-entendidos. Desmontemos alguns, para limpar a vista ou os vidros.

Gerald Moser, que facultou contributos importantes ao nosso campo de estudos, baseado nas escassas e vagas informações existentes e migrantes ao tempo, fez uma interpretação desfocada da revolta contra o major Joaquim Luís Bastos, nomeado Gover­nador e confirmado pela rainha portuguesa Dª Maria II (Ferreira, et al., 1980 pp. XIV, XXIV). Ao julgar que a revolta representava o orgulho dos benguelenses e que Maia Ferreira, amigo de Bastos, implicitamente estaria do lado da “administração pública”, em que foi funcionário, Gerald Moser afastou-se involuntariamente da verdade. Hoje sabe-se que a rebelião contra o governador nomeado era de comerciantes portugueses aliados ao ex-governador, corrupto e denunciado pelos ingleses por ligações ao tráfico de escravos. Usando mesmo argumentos racistas, esses comerciantes estavam a rejeitar um filho do país por ele o ser e por querer limpar a administração local dos vícios de que enfermava. Ao se colocar ao lado do conterrâneo, José da Silva Maia Ferreira estava a defender o “partido angolano” da sociedade novecentista local, ao contrário do que se supunha. E esse “partido angolano” já não se organizava para defender o tráfico negreiro, mas para lutar pelos interesses dos filhos da terra, independentemente do tráfico sempre agredidos e ofendidos pelo poder colonial, ou por colonos a usarem-no e pressionarem-no.

Sem estas informações, relativamente recentes, o publicista Manuel Ferreira (e outros na sua esteira) condenava na lírica do jovem luandense a alienação e submissão dos valores locais perante a cultura “branca”, racializando forçadamente uma prática transcultural à partida alheia a isso. Alguns dos textos importantes para o caso foram discutidos por Carlos Pacheco em O Nativismo na poesia de José da Silva Maia Ferreira (Pacheco, 1996), obra em que procurou situar identitariamente o poeta, e para aí remeto mais uma vez o leitor interessado na discussão historico-antropológica. Por mim, retorno ao poema – que, no entanto, várias vezes apela a contextos históricos e, sobretudo, intertextualizações esclarecedoras.

Esquecem-se os críticos de versos como por exemplo os de «À Minha Terra», ou de «O Meu Credo!»: “Creio em Deus e em minha Mãe, / E na terra em que nasci” (Ferreira, 1980 p. 108). A “terra em que nasci” adjectivar-se-á como pátria no final (“Descrido assim no mundo, / Tenho só Deus — Mãe — e Pátria”), tornando-se materna (“Creio em Deus e em minha Mãe, / E na minha terra também, / Que de mim tem compaixão!”). Não há maior afirmação identitária possível nesse tempo, nem nenhum dos angolenses do meio do século fez alguma afirmação equiparável a esta. Mas, mesmo em «A Minha Terra», a leitura anacrónica não considera duas estrofes fundamentais para a discussão levantada por ela. Trata-se da que tem, no primeiro verso, as palavras “Mesmo assim rude, sem primores da arte” e da seguinte (“Foi ali que por voz suave e santa”).

Manuel Ferreira, nas Literaturas africanas de expressão portuguesa, nem fala nelas, pelo que pôde recrutar para o seu homónimo apenas uma “certa consciência regional [...] imprecisa, diríamos limitada ao nível do inconsciente” (Ferreira, 1977 p. 13). Em O Discurso no percurso africano, livro que debita a Maia Ferreira uma dupla alienação (“racial” e “cultural”), embora diga descuidadamente que o poeta fala “em louvor da sua pátria” no poema «A minha terra», ignora por completo estas duas estrofes, que lhe resolveriam melhor a dúvida que lançava sobre a “implícita [...] negatividade da cor negra” (Ferreira, 1989 p. 39) – que, de tão implícita, não se avistava.

Por sua vez Carlos Ervedosa, no breve mas estruturante Roteiro que nos legou, apesar de substituir a palavra alienação por “assimilação cultural”, que o poeta luandense tipificaria, também não chama para a discussão as duas referidas estrofes. Finalmente, Pires Laranjeira, no manual sobre Literaturas africanas que escreveu para a Universidade Aberta, onde imaginou Maia Ferreira a fugir de Benguela por fraudes sem fundamentar a sua afirmação, fez a leitura de dois versos apenas de «A minha terra»: “Também é bem portuguesa / A minha terra natal”. Depois cita o princípio da primeira estrofe, mas pára no ponto em que devia começar: “É minha pátria” – ponto em que reparou devidamente Manuel Rui numa conferência já antiga. E, em vez de se debruçar sobre a contradição que aparecia entre os três versos, diz que “Deus, a Pátria e o Amor [...] são a tríade de assuntos que atravessam a obra”, sem nos informar sobre a relação que, logo em seguida, o Amor e Deus estabelecem com a Pátria. Os parágrafos com que finaliza a página derivam de não ter atentado nesse relacionamento (Laranjeira, 1997 pp. 58-59). Aliás, não deve ter lido a maior parte do livro, que é quase só de Amor, com a Pátria e Deus aparecendo explícita mas pontualmente.

As duas estrofes a que me refiro são fundamentais porque elas ilustram uma consciência elaborada do problema. Repare-se que, não só reiteram taxativamente uma afirmação vigorosa de identidade, também nos oferecem o leque de requisitos (ainda românticos) que faz de uma terra a nossa pátria. O primeiro de todos é a saudade (“Minha pátria por quem sinto saudades”), um traço comum a muitos emigrados (Vaz, et al., 2006) e exilados; o nascimento e a infância surgem em seguida (“Deu-me o berço”; “Os meus dias de infância ali volveram”), de uma infância, de resto, inseparável da nostalgia do amor materno; finalmente, a revelação maternal da crença oferece um terceiro fundamento para a integração identitária na “pátria”: “Foi ali que por voz suave e santa / Ouvi e cri em Deus! É minha pátria!”.

A ideia de pátria em Maia Ferreira não parece, por tanto, ser ingénua, incipiente, mero regionalismo imberbe e loiro, inerme ou primário. Trata-se de uma concepção complexa e própria do seu tempo que, liricamente representada, remete para três condições que, todas elas, implicam uma relação ontológica na fundamentação do patriotismo: a do reconhecimento pela saudade, pelo duplo nascimento (o do berço, e sob a “luz do sol embora ardente e forte”) e pela apropriação religiosa (onde se nasce para Deus, ali é nossa pátria). A pátria pode, pois, definir-se em Maia Ferreira como o lugar onde se estrutura a personalidade. Por aí ganha uma dimensão, por assim dizer, etimológica: é a terra dos pais, aquela de onde eles transmitem aos filhos o seu arquitexto genético e moral. Ser independente ou não, ser Estado ou Nação, isso depende só das circunstâncias.

Feita esta leitura, interna à obra, falta conjugar outra, externa mas ignorada em geral pelos críticos de Maia Ferreira. Confirmemos, num dicionário da época, o significado do termo “Pátria”, para nos acercarmos do que ele implicava no utente contemporâneo. Encontramo-lo, por exemplo, no Novo diccionario de synonymos de Fonseca e Roquette, totalmente remodelado em 1848: “Patria, berço, ninho, terra”; daí vindo as significações de “patrício” e de “Patrio, nativo, natural”. O poeta alargou, romanticamente, a semântica inicial do termo, sem no entanto a ignorar. Quando ele afirma que a sua terra é portuguesa, não quer dizer que Portugal é a sua pátria, mas sim que a sua pátria pertence a Portugal. Aliás o diálogo enunciativo permite perceber que ele cativa apenas o amigo, ao mesmo tempo em que recorda ao leitor, com subtileza, que o que definia Portugal, oficial e politicamente, não era só Portugal, pelo que era necessário contemplar esses africanos portugueses  quando se governava o reino.

Para percebermos melhor isto é necessário, novamente, reconhecermos a estrutura retórica do texto. Em se tratando de uma glosa, não só de Gonçalves Dias mas principalmente de João d’Aboim, dentro da diegese enunciativa que vimos atrás, o poema ficciona-se como uma epístola, assumindo estrutura de diálogo marcada pela recorrência do pronome pessoal «Tu» e seus derivados possessivos e pela já citada encenação enunciativa inscrita no início: “No álbum do meu amigo João d’Aboim”.

Nessa estrutura dialogada, como afirmaria Jakobson a função da linguagem subdominante, que seria a característica do género dramático, pode realizar-se através de formulações imperativas ou solícitas (ordenando ou pedindo), conforme a relação social estabelecida entre as personagens. Ora o nosso poeta é solícito, não imperativo, porque está a falar para um amigo e para um ‘mais velho’, por sinal aquele que o levou a publicar pela primeira vez, na “gentil Guanabara”. De acordo com as regras de elegância da época (e a prudência política), o autor elogia o companheiro, mais velho e que lhe dera a mão, jornalista já de nome firmado como poeta, cujo álbum lhe acolhe o verso. Posto nessa posição, dentro do quadro enunciativo e social em que o poema foi produzido e inserido, Maia Ferreira exaltava contrastivamente a pátria do “outro”, e a brasileira, de acordo com os dois poemas em função dos quais este surge — o de João d’Aboim e o de Gonçalves Dias – e farejando ainda as estratégias retóricas de «A minha Musa», do mesmo Gonçalves Dias, encimada por uma epígrafe de Ovídio (Dias, 1846 pp. 53-58). Cumulativamente, com a humildade artificiosa dos românticos e a cautela necessária aos naturais, admite ser a sua, das três, a pátria de paisagem mais pobre e menos desenvolvida (o que, aliás, não constituía mentira, infelizmente). Para logo recuperar o patriotismo num efeito de contraponto: “Mesmo assim rude [.../...] É minha pátria ufanoso o digo”. Veremos, ao falar dele, que F. Gomes de Amorim fez o mesmo ao comparar, poeticamente e em verso, Brasil e Portugal.

A exaltação das grandezas ou virtudes alheias visa também, para além das funções sociais que exerce, agigantar o amor do poeta pela “África adusta”: o seu amor é tanto maior quanto menos interessante ela seja. Esse poeta que, apesar do que escreveram, nos mostra conhecer bem a sua terra. Na verdade, quando a descreve sem primores, isso não é só retórico, deriva da observação da faixa litorânea que Maia Ferreira frequentava e constituía, no seu tempo, o núcleo da colónia de Angola. Tanto em Luanda quanto em Benguela não se vê, como em Sintra ou no Rio de Janeiro, uma exuberante vegetação verde ou florida. Há, exatamente, o que ele transcreve, com imagens concretas desta vez: “ondas de branco areal”, “montes de barro escarpados”, o canto do “Benguela” que é visto como saudoso no seu pôr-de-sol, ou “arrebol”. O sol queima mesmo, ali, ao meio de um dia de Janeiro por exemplo, e dá-nos sono, pelo calor excessivo, sono e sede. Isto é palpável tanto em nós quanto num soba. Há, como vegetação, para além de espinheiros, espaçadamente algumas palmeiras. Havia, como bem descreveu, as caravanas que vinham do interior negociar ao litoral, cujos carregadores se levantavam de madrugada e caminhavam, sob o peso das mercadorias a negociar, até que não se aguentasse mais o calor desse árido e quente litoral, tão contrário dos ‘sertões’ húmidos e verdes do Huambo quanto da ‘mata atlântica’ no outro lado do mar. Naturalmente incomodado, o soba, ou o chefe da caravana, fosse quem fosse, sentava-se à sombra da palmeira, cheio de sede por causa do calor, e dormitava um pouco. Mais para o interior, os montes pedregosos tinham espinheiros entre as rochas onde se escondia o leão. Por tanto, essas imagens que o poeta nos instila são tiradas da própria vivência da sua "pátria" e, nessa medida, da sua africanidade.

Leio muitos anos depois acusações de portuguesismo por falar Maia Ferreira nos heróis portugueses que se destacaram em África, mas não vejo que geralmente sublinhem este elogio tão claro: “Africano guerreiro famoso”, enfrentando a pantera com uma simples zagaia. Tirando esta cena, todas as caraterísticas do areal, do semideserto de Benguela e de Luanda (que já foram desertos, como agora o Namibe), podem ser confirmadas por muitas fotografias postas em rede e pelos mapas de satélite. Qualquer leitor vai lá ver e confirma que o poeta falava do que era, concretamente, a sua terra, aquela onde nasceu, cresceu e viveu trabalhando naqueles anos anteriores às – e contemporâneos das – Espontaneidades. E, como vou também demonstrar, só quem conhece bem a mulher africana e angolana pode falar dela como o poeta falou. Para além, portanto, da estratégia retórica, temos uma descrição muito realista daquela terra, própria de quem a conhecia com as palmas das mãos e dos pés, por mais calçado que andasse.

Somando-se aos ajustamentos interpretativos promovidos nestes curtos parágrafos, outros inapeláveis instam a argúcia do leitor. As estrofes onde se incluem os versos citados por Manuel Ferreira — transcritas na crítica de Pacheco — demonstram bem o quanto foi segmentada a colheita do publicista, e provam, por contraste, que os diversos segmentos do poema devem ser lidos em função da totalidade que constituem, não podemos lê-los isoladamente.

Mesmo ao nível da inter­pretação das passagens citadas por Manuel Ferreira, deteto na leitura habitual dessas quadras alguns lugares comuns que não considero justos. Numa delas apela, o publicista e investigador, aos dois versos seguintes: “Sabe amar! — Mas não tem a cultura / Desses lábios de mago florir”. Ainda antes de qualquer análise, note-se a coincidência com a ideia que prevalece em toda a extensa primeira parte do já referido poema «A Minha Musa», de Gonçalves Dias (Dias, 1846 pp. 53-58). A figura inspiradora do indianista e medievista brasileiro é também contraposta à ninfa e à cultura literária, quer nos primeiros dois versos da composição (“Minha Musa não é como a ninfa / Que se eleva nas águas, gentil”), quer ao se exclamar: “Não é como a de Horácio a minha Musa”. O poema de Gonçalves Dias foi, de resto, apadrinhado por uma epígrafe de Ovídio, o que também já referi – e veremos o quanto isso importa, no caso. Igualmente a Musa do poeta brasileiro foi caracterizada pela sincera, singela e profunda tristeza (Dias, 1846 p. 55)
É triste a minha Musa, como é triste
O sincero verter d’amargo pranto
D’orfã singela.
Faltaria aos críticos da linha de Manuel Ferreira fazer uma leitura atenta comparando a lírica de Gonçalves Dias, e a de João d’Aboim, com a de Maia Ferreira. De resto, normalmente, a compreensão da passagem acima realizada por esses críticos remete para uma espécie de concessiva que lhe inverte o sentido. A interpretação deles é: não tem cultura e as outras têm, mas, vá lá, coitadinha, sabe amar!... É o que faz Manuel Ferreira. Também normalmente, o leitor acrítico não desenvolve a análi­se da sintaxe que pode estar lá: sabe amar e [com função de mas] não tem a [mesma] cultura que as níveas don­zelas; ou seja, não ama como as outras, tem outra forma de o fazer porque pertence a outra cultura – mais singela, sem dúvida, como a terra, sem “mago florir” – o que, em outro ponto, o poeta nos traduziria ‘sem galas’. A outra forma de o fazer infla nos versos anteriores e nos que se seguem: o rosto triste, o olhar meigo (não mago) luzindo (não florindo), a fidelidade, a singeleza, a sinceridade, a altivez, a doçura e a fera que o ciúme desperta. Não creio que Maia Ferreira estivesse a falar de mulheres abstratas, inconcretas, ele sabia bem de quem falava: das senhoras africanas, uma das quais lhe deu uma filha.

No caso de Maia Ferreira, muito mais do que outros um poeta de estereótipos (alinhado nisso com os seus amigos ultrarromânticos), é preciso não deixarmos de o integrar na época respetiva, nas comunidades literárias por ele frequentadas, e de o compararmos com semelhantes que, na mesma época, também não tendo sido criados num ambiente europeu, se lançaram à aventura da escrita e do mundo, jogando igualmente mais com estereótipos do que inventando linguagens e poéticas novas. Podemos compará-lo, outra vez, com uma das referências poéticas mais importantes para ele e para muitos lusófonos tropicais, incluindo portugueses emigrados no Brasil (Vaz, 2006): Gonçalves Dias.

Gonçalves Dias, poeta brasileiro indianista, nativista, nacionalista, não deixou de integrar o grupo de O trovador em Coimbra, quando lá estudou, apesar do propósito expresso do grupo, que era o de portugalizar a lírica portuguesa com retornos à Idade Média peninsular, ao vocabulário popular (português) e arcaico, aos temas da História de Portugal. Havia, na verdade, um paralelo, mesmo afinidade, entre o nativismo de Gonçalves Dias e o nativismo de O trovador. Em ambos os casos se tratava de ir buscar a um passado já mítico uma base de identidade projetada sobre o presente, fundando legitimidades e práticas artísticas. É, por isso, natural que tenha Gonçalves Dias escrito as famosas (ao tempo) «Sextilhas de Frei Antão», não somente canções do exílio (compostas no Rio, quando ainda lhes chamava “do Pe Antão” (Dias, 1964 p. 99)), mas um poema que dá conta de outro exílio: o da língua portuguesa antiga, testada, segundo Gonçalves Dias, para “ver enfim que robustez e concisão havia nessa linguagem semiculta […] e estreitar ainda mais […] as duas literaturas”, como diz no prefácio aos Segundos cantos (Franchetti, 2007 p. 13). Recordemos o início do poema:
Bom tempo foy o d’outr’ora
Quando o reyno era christão
Quando nas guerras de mouros
Era o rey nosso pendão,
Quando as donas consumião
Seos teres, em devação
O famoso poeta maranhense, ainda nos Últimos cantos (publicados em 1850, ou seja, contemporâneos das Espontaneidades), como lembra Paulo Franchetti faz comparecer “o tema português: a Lenda de Sam Gonçalo, em forma e espírito idêntica às Sextilhas de Frei Antão (Franchetti, 2007 p. 14).

Mas, quando lemos Maia Ferreira, que publicou três a quatro anos depois de saírem os Primeiros cantos (e com os Segundos cantos é que vieram a livro as Sextilhas, em 1848), num território sob domínio português e sob vigia de um Portugal assustado com a ‘perda’ do Brasil, um território onde era funcionário público e parente de defensores da ‘Confederação Brasílica’, entendemos como falta de nacionalismo ele falar em motivos portugueses quando se dirige a um poeta e patriota português intertextualizando com, justamente, Gonçalves Dias. Porquê uma tão brusca mudança de critério da nossa parte? Precisamos ajustar as nossas lentes para reconhecermos o mesmo produto em portos díspares (e a nossa é muito uma história de portos). Maia Ferreira nem sequer escrevia num português antigo, pelo menos tão antigo quanto o de Frei Antão. Tal questão, de resto, nem se devia colocar a um poeta, é como perguntar-lhe pela monogamia visto que ele ama por seus versos mulheres diferentes. O que define o trabalho poético é tão só a conjugação dos temas com os motivos através de recursos estilísticos para produzir uma estesia. Palavras, sintaxes, arcaísmos, são recursos estéticos. As articulações ideológicas ou identitárias, para um crítico tal como o concebo, também são recursos estéticos, os que visam segurar (a par de outras estratégias) a adesão afetiva do leitor – e o primeiro leitor de «A minha terra» era João d’Aboim. Recordemos ainda a coragem e coerência de Gonçalves Dias antevendo as críticas dos nacionalistas estritos: “aceito a inspiração quando e donde quer que ela me venha” (Franchetti, 2007 p. 14). Acresce que, no caso do nosso poeta, não podemos ainda falar em nacionalismo nos termos em que se falava no Brasil desse tempo, pois nem sequer isso lhe era permitido em Angola (a ele e a outros integrantes do grupo Jovem Luanda, referido por Carlos Pacheco – um círculo nativista benguelense formado, como o nome indica, por jovens luandenses para defender interesses locais).

No caso de Maia Ferreira, as referências localizantes são raras e humildes, enquanto Gonçalves Dias enaltecia o Brasil, a América luxuriante, e estava sempre a localizar os poemas com cenários típicos, mesmo que esses não fossem brasileiros, mas estereótipos do exotismo. É importante registarmos que tal era uma característica da sua oficina poética. “Uma das caraterísticas mais marcantes” na obra do maranhense, como percebeu Paulo Franchetti, “é o gosto pelos ambientes, pelas épocas e pelas paisagens exóticas” – um gosto bem conjugado ao dos leitores contemporâneos. Em Maia Ferreira não. As paisagens, exóticas ou próprias, são descritas de forma rápida, numa frase breve, muitas vezes sem especial atratividade ou sensualidade – o que tornou a sua lírica menos interessante, menos viva, pois ela vinha de uma estrada de secura. O que há de comum entre os dois é que também para Maia Ferreira Portugal constituiu referência exótica, mais ainda o Portugal histórico, o das «Sextilhas de Frei Antão» por exemplo, ou o do poema «A minha terra», onde Maia Ferreira desfila como ‘heróis africanos’ uns tantos nomes de heróis portugueses antigos em África (a maioria no Norte de África). Mais uma vez, esse era um movimento aparentado com o que se fez no Brasil, incorporando heróis do tempo colonial ao memorial da história brasileira. O que Maia Ferreira dizia, quando elogiava tais heróis, era qualquer coisa como: nós, aqui, também nos podemos filiar em heróis portugueses, os heróis portugueses de África (não os que nos oprimem hoje, mas os de outras eras), portanto respeitem-nos como vossos concidadãos. Defendia-se, novamente rentabilizando uma estratégica humildade.

Isto posto, se torna mais visível a conveniência de compreender a intertextualização na qual os poemas do nosso “vate” surgem. As localizações de Maia Ferreira são humildes por estratégia retórica e são raras por oficina própria, pobre, defeituosa se quisermos, nisso também correspondendo à paisagem árida que era a da sua terra. Justamente, é um outro sinal de deslocamento, de diferença, a quase ausência de referências a locais precisos em casos idênticos ao dele. Escrevo “quase”, pensando no sério quase nada de Jankélévich, uma espécie de fímbria persistente e, a seu modo, marcante.

Se estudarmos a relação de alguns autores das Caraíbas com a sua terra no século XIX e começos do seguinte, podemos encontrar semelhanças. Supunhamos Saint-John Perse, tal como o viu Chamoiseau. Ele foi menos marcado pelas Antilhas do que Maia Ferreira por Angola. A paisagem e as vivências das Antilhas assaltam menos a sua obra do que Angola marca a de Maia Ferreira, mesmo que, lendo o primeiro livro de Perse, nos pareça o contrário. Ambos filhos de famílias instaladas nas colónias há várias gerações (sobretudo no caso da mãe e também para os dois), a vida os afastou do lugar de origem. No caso de Maia Ferreira, aos sete anos, para voltar com 18 anos, órfão de pai; no de Saint-John Perse aos doze para não voltar a residir. A partir daqui as biografias divergem. Uma vez ido para França, Perse parece dizer definitivamente adeus às Antilhas e torna-se desde logo um poeta inequivocamente francês. As suas primícias literárias, as Images à Crusöé, publicadas na NRF e que constituem uma intensa despedida da infância, não terão sequência temática significativa (a obsessão com a infância, com a ilha), pelo menos tão significativa quanto a sua relação com a China, bem posterior. Pelo contrário, Maia Ferreira volta a Angola em 1845 (aos dezoito anos) e durante seis anos vive ali com idas ao Rio de Janeiro. Ali publica, então, os primeiros versos e, quase, os únicos. Esses são os versos que discutimos e, de forma geral, sem lhes darmos a necessária atenção. Sem repararmos, por exemplo, com profundidade e sistematicamente, em todos os seus retratos femininos, que não são só de mulheres loiras ou europeias, como desdisseram críticos acrónicos, pungentes e pingentes. O futuro de Angola também nos havia de mostrar casos interessantes para compararmos com o de Maia Ferreira, escritores como Augusto Bastos (que chegou a ser preso por nativismo) e Óscar Ribas (o dos primeiros livros). Essas comparações, porém, terão de ficar para mais tarde. O que por agora interessa é notarmos que as paisagens rareiam em ambos os casos mas, no de Maia Ferreira, a ligação com a terra natal se mantém e, por exemplo, os retratos femininos compensam a escassez e a secura das descrições telúricas - aliás autênticas.

O nosso poeta não deixou nunca de assumir a terra angolana como sua e de a contrapor (humildemente) à Guanabara e à Sintra de amigos mais velhos, num diálogo nada inocente, nem só pessoal. Angola permanecia, também na poética imagem que de si próprio representou, o espaço umbilical, identitário, a partir do qual se explicava a si próprio. Estando ligado por laços familiares (maternos) a angolanos que escolheram a ‘causa brasileira’ em 1822, tanto quanto (paradoxalmente) a eventuais miguelistas muito ligados ao comércio com o Brasil (os amigos do pai, figura que nos seus versos ignora, como notou Carlos Pacheco, mas por quem manifestou grande apreço mais tarde, em Nova Iorque), a reivindicação umbilical pode ser mais significativa do que pensávamos e sem o colocar do lado negreiro, muito menos miguelista. Lembremo-nos de que sai da sua família materna próxima a lei da proibição da importação de escravos para o Brasil, aprovada a 4 de Setembro de 1850, a chamada Lei da Princesa Isabel, ou Lei de Eusébio de Queirós (seu primo afastado – o seu irmão chamava-se Luís de Queirós, aliás – e como tal referido por ele em carta, embora o parentesco mais próximo fosse com a sua mãe). Como se sabe, Eusébio de Queirós integrava (Ministro da Justiça) o executivo do Partido Conservador (então chefiado pelo Marquês de Olinda) e liderou o processo de aprovação da Lei[16]. Foi um dos políticos mais poderosos e respeitados do seu tempo, coroando assim a integração da família na sociedade brasileira e correspondente abandono de Angola - terra natal - e de Portugal, pátria legal. 

Casos idênticos, de referências escassas à terra de origem, como disse, foram estudados em relação a poetas não-lusófonos que viveram nos limites de algum império. E, mesmo no Brasil independente, só nas “décadas de 40 e 50 do século XIX” assistimos à explosão indianista, nessa altura emergindo o “maior volume de escritos literários indianistas, bem como discussões sobre políticas indigenistas e a valorização plástica da imagem idealizada do índio” (Ribeiro, 2006). Ora, Maia Ferreira publica os seus poemas (juvenis) em 1849 e Antonio Candido assinala, para o início do ultrarromantismo no Brasil, a “tendência que vinha dos anos de 1840” e que se dá a ver “no decénio de 1850” (Candido, 2002 p. 51). Maia Ferreira estava, portanto, bem dentro do seu tempo no que diz respeito à cronologia literária do Brasil, onde realizou os primeiros estudos e onde cresceu depois dos sete anos. A timidez ou vaguidão paisagística (assim lhe chamemos) era comum nesse tempo, em que muitos poetas ainda situavam as suas elegias e baladas em lugares míticos e não naqueles onde residiam (recorde-se que a balada literária, mesmo na poesia portuguesa, tem uma origem exótica (Marques, 2012)). A contemporaneidade literária do poeta pode-se ver, por exemplo, comparando-o com Bernardo Guimarães e outros autores brasileiros da altura, mesmo Álvares de Azevedo, quiçá o menos estereotipado do grupo de Direito de São Paulo, ao longo do século XIX lido em Angola (por Cordeiro da Mata, pelo menos) e Cabo Verde (Cardoso, 2018 pp. 59-60). Pode ver-se ainda se compararmos o seu caso e o da nossa cronologia literária (relativamente à qual estava adiantado) com a de outras províncias do império brasileiro, como Pernambuco ou Rio Grande do Sul (Póvoas, 2017 pp. 69-96). Se não os acompanhou no indianismo, que então começava, foi por não ter condições para isso em Luanda ou Benguela. 

Note-se, no mesmo sentido, que a mitificação indianista não arrebatou por inteiro a corte literária carioca, muito menos os vários Estados do Brasil, havendo figuras de peso a opor-se a uma artificial e medieva exaltação do índio, ora por preconceito, ora por lucidez (realmente, já naquela altura, a maioria dos brasileiros não era constituída por índios e, na mestiçagem típica do país, as várias heranças negras terão sido mais numerosas e marcantes que as dos índios, se excluirmos os topónimos e nomes próprios). Ou seja: o convívio no meio literário carioca não implicava necessariamente uma adesão indianista, mesmo integrando Gonçalves Dias no círculo de convivências literárias de Maia Ferreira (o que é, talvez, exagero, ainda que se tenham conhecido).

É uma fase da formação das nações, aquela que já não nos define pelo regionalismo autonomista, mas ainda não nos define, claramente, assumidamente, pelo nacionalismo independentista, surgido cem anos mais tarde no nosso caso. Maia Ferreira situa-se, a meu ver, aí no que diz respeito a Angola – tanto quanto Carvalho e Menezes, mais velho que ele, e Correia de Castro, integracionista por liberalismo e anti-esclavagismo. Podemos estabelecer algum paralelo com poetas brasileiros nesse aspecto, como seja o caso do prerromântico Domingos Borges de Barros (outro pintor vago de sentimentos), desde que salvaguardemos o efeito independência num caso (Brasil), que fez diferir profundamente o caminho poético de ambos pelo simultâneo reforço do colonialismo em Angola e consequente dispersão biográfica de José da Silva Maia Ferreira. A diminuição de referências não tem relação direta com a defesa da integração ou da independência. Ele quer também dizer que o poeta sabia que a descrição da sua terra (daquela parte em que viveu) não se inscrevia nos cânones de época, os da literatura romântica europeia ou americana: outra fauna, outra flora, outra feminilidade, enfim, outras pessoas também, mas não suficientemente exótica e mítica, muito menos luxuriante, pelo contrário, apenas pobre, se não rarefeita, semidesértica e, sobretudo, sofrendo com o descrédito votado a praças onde se ia garimpar o marfim, buscar escravos e abandonar degredados.

Os retratos femininos de Maia Ferreira, por outro lado, filiam-se também numa linhagem romântica particular: interseccionam-se com os de Chateaubriand, que ele certamente lera e que fora um marco decisivo no romantismo lusógrafo. O livro Os mártires fazia parte da biblioteca de Vieira de Carvalho, amigo do poeta na fase benguelense (apesar de se oporem no que diz respeito a Joaquim Luís Bastos), ao ponto de nas Espontaneidades incluir um poema colocado no álbum do culto e apaixonado médico (Ferreira, 1849 p. 84). Nos seus retratos, Chateaubriand dá-nos dois ou três traços físicos objetivos (do tipo “alto” ou “pequeno”, côr do cabelo, etc.) e passa para uma caracterização mais íntima, psicológica, neste sentido romântica, também resultante, sem dúvida alguma, da sensibilidade ao outro na convivência. Passa de um para outro campo através de “shifts”, ou portas de vidro, como o sorriso, a maneira de falar, o olhar, traços cuja adjetivação nos deixa entrever uma personalidade, mas que são físicos ainda, melhor, psicossomáticos. É mais ou menos assim que devemos olhar os retratos líricos femininos de Maia Ferreira, sobretudo os que se reportam a mulheres angolanas. Menos ainda no aspeto físico e mais ainda no aspeto psicológico, ou no moral. Os traços psicológicos e morais parecem-me ser mais intensos quando se refere às musas africanas, o que se nota logo nesse poema fundador, «A minha terra» (Ferreira, 2002 p. 27):
Não tem Virgens com faces de neve
Por quem lanças em riste Donzel,
Tem donzelas de planta mui breve,
Mui airosas, de peito fiel.
Ambas as musas, aqui, são contempladas com uma característica física somente: “faces de neve” e “planta mui breve”. A lança “em riste” do “Donzel”, enquanto imagem erótica, visto que as “Virgens” não têm caraterística psicológicas, é contraposta ao “peito fiel” (não caído, nem traidor) das nossas “donzelas”. Alguns críticos, não percebendo que a referência ao “peito fiel” não está lá só por estereótipo, acharam depreciativa esta dicotomia, por comparar o nevado rosto de uma com os pés de outra e os seus seios duros – ainda assim mesmo elogiados por Viriato da Cruz, tantos anos mais tarde! Mas o que se diz do rosto da musa europeia? Sim, para descrever esse rosto repete-se um estereótipo típico das europeias: “faces de neve”. Sem mais nada. Porém, neste caso, ninguém reparou tratar-se de um estereótipo. Tudo foi lido como se os pés da segunda surgissem por não haver mais nada nela digno de figurar num poema e o “peito fiel” uma expressão banal. Entretanto, junto ao Cutato, vozes límpidas cantavam em coro (Tchicale, 2011 p. 79):
[as garças] foram beber água, flutuando
Ou seja, também as nossas oraturas elogiavam esse andar flutuante próprio da elegância feminina, de "planta mui breve". Maia Ferreira podia, perfeitamente, ter escutado o canto umbundo e aproveitado a sua imagem. O que diz ele da “planta”? “mui breve”, ligeira como o andar das “donzelas […] airosas, de peito fiel” – assim classificadas pelo perfil psicológico e moral, enquanto as ‘de neve’ não sofrem qualquer outra caracterização naquele passo. Numa altura em que Maia Ferreira terá tido uma filha com uma senhora da terra, filha essa que morreu em Benguela, isto se torna ainda mais significativo.

Mas, quer as “faces de neve”, quer a “planta mui breve”, são traços conhecidos por toda a literatura europeia desde, pelo menos, Ovídio – e continuaram sendo até bem depois de Maia Ferreira. Num conhecido cânone europeu, o branco das faces talvez indique pureza, ou palidez, ou simplesmente a cor da pele; a “planta mui breve” indica já um traço mais palpável e dinâmico, mais psicológico também, o de um andar ligeiro e gracioso. No que se alinha com a Iracema de José de Alencar (em 1865): “O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.” (Alencar, 2013 p. 27) Muito mais feliz a expressão do romântico brasileiro, sem dúvida (escrita em prosa, de resto), mas exprimindo o mesmo deslumbre com a “planta mui breve”, expressão que parece ter sido comum na época.

Entretanto, explorando a nossa pobre expressão, pela ambiguidade da palavra, não era só a planta dos pés que se designava, precisamos acordar essa metáfora hoje morta. O que ela sugere é, também, uma planta, um ser vivo, que sobe no ar ao mesmo tempo em que se mantém ligada ao solo. 

A caracterização da musa alheia (do poeta seu amigo) segue depois por aquilo que um Donzel faz por ela; a nossa não. A nossa “donzela” (observe-se o jogo sonoro “Donzel” / “donzelas”) é “airosa” e “fiel”; a outra não sabemos o que seja concretamente, ou psicologicamente. Nas estrofes seguintes ficamos a saber que é culta (motivo e tópico associado à musa pelo menos desde Sá de Miranda e Camões e, antes deles, desde o Renascimento italiano), mas também “afetada” e “refalsada”, como seria de esperar de uma dama cheia de ornatos e sua previsível linguagem pomposa. Em contraste, a africana exibe um olhar “de prata” com “meigo luzir” (e só quem não conhece uma angolana não reconhece este olhar) que espelha quem o vê, tem “doçura”, “tristura”, “altivez” felina, é natural, intensa no amor que sente e “sabe amar” (ambivalente o verbo, aliás). Esta é real, sensível, palpitante. E simples, como queria o romantismo que fosse a linguagem (Garrett, 1823):
Não, Senhores, a eloquência do homem livre é a linguagem do coração: desconhece ornatos, ignora enfeites; é simples como a natureza; é singela como a sua simplicidade.
Estas palavras foram proferidas por Garrett na morte de Manuel Fernandes Tomás e referiam-se à eloquência. Mas resumiam um dos ideais românticos e um ideal que se corporizou, poucas vezes embora, na representação da mulher. Em contraste com essa mulher simples e essa linguagem do coração, tinha ainda prestígio assinalável a mulher e a linguagem dos ornatos e culta, cheia de galas e conhecendo os nomes dos mais importantes escritores e pensadores, sabendo citar as frases sábias deles em vez de provérbios populares. O romantismo europeu vivia nesta duplicidade, em que se idealizava a natureza como modelo de linguagem e de verdade, de pureza e de beleza, mas ao mesmo tempo se cultivava o salão, a dama nobre e as musas de papel, a quem sempre seria exigido, pelos cânones sociais e da moda, que fossem tudo menos simples no seu convívio requintado, cheio de falso pudor, com os donzéis de lança em riste... 

Daí resultam as desilusões previsíveis da “minha natureza de africano”, como disse Maia Ferreira numa carta, que se chocava com ‘diplomacias’ e intrigas de salão. O retrato que dele fazem os amigos do tempo de estudante em Lisboa coincide com essa imagem de um bom companheiro, disponível, franco, leal. É talvez esse tipo de personalidade que, ao mesmo tempo ciente dos paradigmas românticos, contrapõe à mulher culta, mas “refalsada”, da Europa, a africana que, afinal, encarnava (por assim dizer) esses paradigmas e, portanto, a figura da mulher romântica alternativa à que vinha do Neoclassicismo, ou seja, uma princesa natural e simples.

O contraste nos dá uma chave de leitura que podemos estender a toda a obra e não só no que diz respeito ao retrato feminino, mas agora é dele que tratamos. Nas Espontaneidades, muitas vezes o poeta sugere, com alguma simplicidade, aquela figura feminina que amamos muito, mas que nos traiu, que foi falsa connosco, enfim, que tinha códigos e interesses divergentes. Essa musa possuía, no livro, as caraterísticas típicas das “faces de neve”. Maia Ferreira pensava, entretanto, em outras mulheres e, num leque díspar, variado, podemos agrupar algumas em que se destacam o tom escuro (ou dos olhos e do olhar, ou dos cabelos, ou da pele metaforizada pelas pétalas roxas de uma flôr – como faria mais tarde o português Cândido Furtado), a intensidade psicológica e afetiva, a “tristura” e, na maioria dos casos, a fidelidade ou sinceridade. Alguns poemas habitualmente não considerados devem ser relidos para identificarmos o que digo sobre a musa africana de Maia Ferreira. Por exemplo «A uns olhos que eu vi!» (Ferreira, 2002 pp. 127-128), «Tenho Fé!» e «A minha flor!» (Ferreira, 2002 pp. 104-107), «O meu ramo! / ao meu amigo Manuel da Costa Carmo»[17] (Ferreira, 2002 pp. 99-100), «Num Álbum» [Eugénia] (Ferreira, 2002 p. 96), «Em que estás tu a pensar?» (Ferreira, 2002 pp. 81-82).

Atente-se, ainda, em «Uma recordação!» (Ferreira, 1849 pp. 33-34), muito especialmente na primeira estrofe:
Era noite de mui almo luar —
Uma noite em que triste pensava
Em amores que o tempo roubou-me,
Em Maria que eu tanto adorava.
Tem um ritmo corrido e uma expressão singela, que faria sorrir qualquer intelectual e qualquer candidato a poeta supremo, sobretudo no quarto verso e por mais romântico que fosse o pretensioso. Uma vez isso visto, foquemos, por momentos, a nossa atenção na biografia do poeta. Em 1848, em Dezembro, não se sabe onde (e pode ter sido no Rio de Janeiro), nasceu uma criança, chamada Ana, filha de José da Silva Maia Ferreira. A mãe chamava-se Faustina Maria do Amaral (Pacheco, 1992 p. 47) e Maria, para além de aparecer neste poema, forma um anagrama em outro das Espontaneidades, lembrando-nos ainda a “Marie” do Bug-Jargal de Victor Hugo, poeta e livro lidos por Maia Ferreira. O outro poema das Espontaneidades, em que Maria aparece por anagrama (Ferreira, 2002 pp. 90-91), na estrofe final, é «Os teus olhos!», um motivo comum na época e na lírica do autor. Ele foi dedicado “À Excelentíssima senhora D. M. Rezende”, que não sei quem seja, mas escrito por extenso o tratamento social da dedicada, suponho que se tratava de pessoa importante no meio. “Maria” pode, nessa composição, designar, por extenso também, o nome a que se refere o “M.” da dedicatória – ou não.

Aquela parte da citada informação de Pacheco, parcialmente sugerida pela sua conotação com o poema de A. P. da Costa Jubim inserido no livro, intitulado «A uma criancinha» e dedicado ao poeta, precisa de se contextualizar melhor no próprio livro. Os dois primeiros versos do poema de Jubim apontam para uma criança do sexo masculino: “Gentil infante, inocente, / Porque ledo assim sorris?” (Ferreira, 2002 pp. 44-45). O poema vem localizado no Rio de Janeiro com a data de 27.12.1848 e a filha Ana terá nascido, justamente, nesse mês e ano (caso não tenha nascido no Rio, Jubim terá escrito o poema a pedido e o poeta, no Rio de Janeiro também, ainda não saberia, sequer, o sexo da criança?). Será que “infante” é sinónimo de criança ali, sem isso implicar o género masculino, apesar de várias palavras aparecerem no masculino? É possível, até porque o título menciona “uma criancinha” sem lhe indicar o sexo. Possível, mas não seguro, apesar de, no segundo romantismo, esse tipo de composições ser escrito por lugares-comuns que mais disfarçavam do que mostravam o concreto perfil das personagens. O poema de Jubim vem a seguir à imitação (“se eu fora o grão vate de Argiva potente”) posta no álbum da Excelentíssima Senhora D.ª C. A. C., que também não sabemos quem seja e, como vários outros no livro, não traz data. O poema seguinte, o já referido «Uma recordação!» (Ferreira, 2002 pp. 46-47), feito sobre estrofes de quatro versos, inicia pela que citei atrás.

O poema também não vem datado e a sequência do livro não é, necessariamente, cronológica. Pelo contrário, os poemas parecem colocar-se por agrupamentos temáticos, que talvez correspondam a episódios da vida mas talvez também não correspondam, nada nos assegura isso. Estando certa esta hipótese, podíamos pensar que “Maria” se refere, ali, à mãe de Ana, Faustina Maria do Amaral – nome para o qual ainda não encontrei nenhuma correspondência nas fontes consultadas, incluindo alguns registos de batismo em Benguela (aos de Luanda não tive acesso). A causa do rompimento da felicidade junto à amada não é clara também (“o tempo roubou-me”), podendo ser a sua morte (que atraiçoa as expetativas do autor) ou a sua (não da morte ou da saudade) “pérfida traição”. A verdade é que o poeta jura amá-la com paixão “adorar-te na vida, e na morte, / conservar em meu peito a paixão!” com que o poema finaliza (Ferreira, 2002 p. 47). Mas a poesia nunca é fonte segura, muito menos numa época na qual o poeta encarnava (por assim dizer) a personagem (que podia não corresponder à sua figura pública) falando (escrevendo) na primeira pessoa sob o ponto de vista da personagem, que seria, na situação enunciativa, uma segunda ou terceira pessoa. Mais a mais, em Fevereiro de 1849 (a 22), um ano antes da morte da filha em Benguela e cerca de dois meses após o nascimento, compôs um poema que, apesar dos estereótipos, nos transmite uma desilusão sentida, com pormenor biográfico, devida a uma traição amorosa. Nessa altura o poeta se encontrava no Rio de Janeiro, recordemos. Não sei se teria deixado mulher ou companheira na casa de Luanda, onde vivia. Sei que a mãe, que lá se deslocou levando quatro filhas para casar uma, não ficou nessa casa, mas na de um comerciante amigo, o que me causa alguma estranheza, tanto mais que o poeta morava em casa de seus pais. A estranheza, de resto, aumentou porque o poeta encontrava-se no Rio, muito provavelmente no Rio Comprido (onde ficava a Chácara do Bispo, D. Fr. António do Desterro), na “chácara com casa de vivenda, n.º 58” (Pacheco, 1992 p. 44) e próximo da igreja do Divino Espírito Santo (que se encontraria em muito mau estado quando por lá passou Joaquim Manuel de Macedo), portanto próximo do Largo no qual se cruzava essa rua com a do Engenho Velho (Repartição de Polícia, 1849), bairro onde ficava o internato do Colégio D. Pedro II (na rua de S. Francisco Xavier), cindido do Externato em 1857. Pelo menos o subdelegado do Engenho Velho recebeu nessa altura um “requerimento do coronel Bernardo José Correia dos Santos”, em que ele apresenta queixa (sem se indicar a causa) contra “José da Silva Maia Ferreira” – para que este tome conhecimento e se proceda em conformidade. O Engenho Velho ficava a cerca de uma légua da cidade e “não é agradável fazer semelhante viagem a pé”, embora seja agradável de carro (Macedo, 2005 p. 365). As ruas do Rio Comprido, Engenho Velho e a de Francisco Xavier eram ruas de chácaras com jardins, muito da preferência dos ingleses (em particular a de Rio Comprido (Pacheco, 1992 pp. 40-42)), proporcionando um belo passeio, segundo o médico e escritor Joaquim Manuel de Macedo, nascido em 1820.

Outro problema prende-se com a data de falecimento da “filha natural” (portanto, não se teria casado): 10.2.1850. As Espontaneidades terão sido publicadas em 1849, pelo que a “recordação” não podia referir-se ao ano seguinte. Mas há também indícios de que só teria saído o livro em 1850. Os estudiosos divergem, confesso que eu próprio não sei por qual data me decida. A principal dúvida prendia-se, até agora, com o ano de uma composição dedicada «A Sua Majestade Fidelíssima a Senhora D. Maria II», que traz a data junto à palavra “Dedicação”, abaixo do título: “4 de Abril de 1850”. É possível que o livro estacionasse nas oficinas da Imprensa do Governo em Luanda alguns meses, por dificuldades que podem ser as mais variadas numa colónia pobre, em semi-abandono, voltada para lucros imediatos e descarga de inconvenientes. Encontrando-se parada a impressão (por exemplo por falta de papel ou tinta, materiais priorizados para o Boletim oficial), que de resto não estaria programada, porque Maia Ferreira só chegou a Luanda a 14-9-1849, o poeta lhe iria acrescentando alguns textos entretanto escritos, entre os quais essa “recordação”, desesperada, que chega a ser veemente. Note-se que o poeta acusa “o tempo” de lhe roubar os “amores”, objetivados provavelmente na “Maria que eu tanto adorava”. Na estrofe seguinte repete e precisa: “Nesta terra em que a sorte roubou-me / Os amores que eu tanto adorava!” – e aqui o plural de “amor” me parece muito apropriado ao episódio que suponho (teriam morrido mãe e filha?) Ele queixa-se de uma “pérfida traição”, mas garante sentir uma intensa saudade. Saudade de quem o traiu? No final assegura que será “p’ra sempre oprimido” (ou seja: estamos perante um facto irreversível), mas, “em tão triste e medonha soidão” há de adorá-la “na vida, e na morte / Conservar em meu peito a paixão!”. É estranho que mantivesse um tal sentimento por alguém que o traísse; é também estranho que, nessa passagem, tivesse em mente a filha referindo-se a uma paixão. Por outro lado, qual seria “deste mundo a maior desventura” (releia-se o poema)? Para Tomás António Gonzaga, na Lira XXVIII de Marília de Dirceu (Gonzaga, 1824 p. 95),
A maior desventura
É sempre a que nos lança
No horror da sepultura
Maia Ferreira olhou para estes versos, ou para outros, visto que a expressão não era inédita já no tempo de Gonzaga. Mas em 1845, precisamente, saiu no Rio de Janeiro uma edição do livro de Marília, na “Biblioteca dos Poetas Clássicos da Língua Portuguesa” (tomo V) dos editores Laemmert, edição “mais correta”, onde se pode reler a passagem acima citada (Gonzaga, 1845 p. 170). Seja qual for a fonte, a expressão – ou qualquer equivalente, como “a maior dor humana” – era corrente na época e associada à morte, fosse ela dos filhos, ou de qualquer outro ente muito querido.

É, portanto, possível que o poema sofresse motivação biográfica e referisse a morte da filha, da mãe, ou de ambas. O apelido Amaral circulava já na altura por ilustres e poderosas famílias de Luanda, quer atribuído a mulheres de pele clara, quer a mulheres de pele mais escura – a maioria das vezes nem dá para saber disso. Tratar-se-á, possivelmente, de uma paixão angolana, de Luanda mesmo e parece-me sintomático, mais uma vez, que a sua mãe, tendo ido a Luanda, não se instalasse na casa habitada pelo filho, nesse momento ausente. Ainda por cima, como já disse, tratando-se de uma casa que pertencia aos pais, situada no Largo do Esquadrão. Tendo casa livre e sua, porque decidiu D.ª Ângela instalar-se na de um comerciante amigo – aliás, um negociante com ligações aos EUA? Não sei.

Mas é esse um poema que podemos associar aos outros que nos falam de mulheres africanas, retratando-as pela intimidade, pelos sentimentos (seus e delas), não por traços físicos, que podia ser delicado referir no reduzido contexto urbano de Luanda ou de Benguela (este mais reduzido ainda). Agora vejamos: se, num poema que parece dizer tanto do sofrimento próprio, o autor não refere traços físicos, essa ausência de descrição visível é um sintoma de distanciamento? Não, claro que não, não pode haver traços de distanciamento relativamente a alguém que, no mesmo poema, o amante jura amar até após a morte e cuja perda lamenta sofrido, em ritmo vívido. De igual modo, não seria dramática a referência aos sentimentos próprios em torno dela, ou delas (mãe e filha, certamente), se estivéssemos perante mera reprodução de estereótipos.

Depois de lermos esses e outros versos às mulheres africanas, veremos não terem razão certos críticos, ao apontarem um vocabulário europeu, de lábios de “carmim”, cabelos de “oiro”, alvura da pele, tons claros dos olhos, como traço principal das mulheres de que fala Maia Ferreira, que tinha todo o direito de se apaixonar por alvas mulheres loiras de olhos claros, como qualquer africano faria se lhe apetecesse – e muitos o continuam fazendo. É preciso lermos os poemas todos em que fala de mulheres (a maioria dos poemas do livro) e dar atenção aos traços de personalidade, neste sentido íntimos, com que pinta as suas musas (como acima disse: o olhar, o gesto, a densidade psicológica, o forte sentimento que sofre e provoca, só retratáveis por alguém que fala a partir do convívio denso e do conhecimento interiorizado). É preciso também recordar, com Sérgio Nazar David, que "as convenções românticas [...] para os assuntos espinhosos exigiam, também no escrever, «recato» e «decoro»"...

A interligação entre o tema do amor e os motivos femininos, por um lado, e a temática da identidade por outro (ou da umbilicalidade), encontra o ponto culminante num poema que Salvato Trigo desvaloriza pela “singeleza e fragilidade retórica” (Ferreira, 2002 p. 14). Pelo contrário Luís Kandjimbo, como lembra o crítico português no seu prefácio, considera esse o “poema mais indiciador, se não o mais representativo” da identidade de Maia Ferreira. Não será tanto o que diz Kandjimbo, também não só pelos motivos indicados, mas não me parece que o poema não seja representativo da ligação do autor a Angola, nem me parece frágil na sua estratégia retórica e na sua estruturação poética, pelo contrário, parece-me bem organizado e convincente. Nessa observação, Kandjimbo terá sido mais perspicaz do que Salvato Trigo.

O título do poema é, sintomaticamente, uma dedicatória: «À minha terra» (Ferreira, 2002 pp. 118-119). Também não por acaso ele quase repete o do poema inicial, que já comentei («A minha terra»). Não por acaso, ainda, aparecerá mais para o fim. Proponho uma leitura atenta e pormenorizada para o compreendermos e podermos desfrutar de uma estesia que, à primeira leitura, parecia não ter condições de emergência. Veremos a ligação dele com a motivação amorosa e feminina de que venho falando e que o liga mais intensamente e interiormente ao seu país, ou berço social, ou cadinho – talvez a palavra apropriada neste caso.

Olhemos primeiro os paratextos que, na página, envolvem os versos. O título, como disse, é uma dedicatória (e pode integrar-se no poema não sendo considerado paratexto). Um subtítulo esclarece, como era hábito na época e antes dela, a diegese ou estória na qual devemos imaginar as referências: “no momento de avistá-la depois de uma viagem”. Suponho que num dos seus regressos do Rio de Janeiro a Luanda, muito provavelmente o último, ainda em Setembro de 1849, o poema tenha surgido (e estou só a seguir, afinal, as diretas sugestões do texto). Mas o “depois de uma viagem”, ali, nos alerta para possíveis intertextualizações que faziam todo o sentido naquele ambiente bibliográfico no qual o poeta estava inserido. Nele circulava o Diálogo dos mortos, de Luciano, onde fica bem patente o sentido da travessia, da viagem sobre a água como despojamento, purificação, condições iniciáticas para se atravessar até ao outro lado. Na barca de Caronte, os mortos entram despidos e despojados, sem roupa nem bagagem, sem nada que tragam do mundo velho de onde vêm. Recorde-se aquele verso em que Maia Ferreira pede à sua terra para se despir de galas. Ele quere-a autêntica, após a viagem iniciática e a sua simplicidade será um sinal (de resto, romântico) da sua liberdade. A terra simbolizava para ele, se levarmos em conta esta provável intertextualização, o retorno à infância, à pureza, ao desnudamento, para o qual a provação da viagem marítima o preparara. A nudez dos morros e do branco areal é a versão angolana do paraíso, ou do outro lado (de onde se veio, para onde se vai), como terra de chegada após a travessia, a iniciação pelo deserto marinho. Por isso ela tem valor próprio mesmo assim, brilha, luminosa e quente, recebe-o maternal e feminina, mas despida, nua. Por isso, apesar de ela ser assim, nunca deixará de ser a sua terra, o seu lado, o seu paraíso e abrigo. Veremos, daqui a poucos parágrafos, como a aterragem, quase lunar, se dará nos olhos do poeta. Antes, o contexto, agora não o bibliográfico, mas o biográfico. 

Com a ajuda dos primeiros versos, imaginamos a situação diegética: o poeta, ainda no ‘madeiro’, avista a sua terra e, inspirado pela saudade, escreve a ela e sobre ela, como também para um amigo próximo, que ali vive.

Esse amigo, penso que próximo, fica nomeado pela dedicatória formal: “Dedicação ao meu compatriota o ilustríssimo senhor Joaquim Luiz Bastos”. Pertencendo Maia Ferreira a uma família fortemente ligada ao Brasil e estando Portugal então cioso da propriedade da sua colónia, onde alguns filhos da terra sonhavam com a independência sob proteção do novo Império (a “Confederação Brasílica”, declarada em Benguela em 1823), é sem dúvida arriscado falar ele, em Angola, nesse livro, num “compatriota”, a quem dedica um poema destinado a exprimir o amor pela sua terra.

Compatriota, no século XIX, podia significar “concidadão”, sendo esta a aceção mais comum. Podia, igualmente, significar “patrício”, ou “conterrâneo” (Fonseca, et al., [1889] p. 65). No Dicionário prosódico de Portugal e Brasil (Carvalho, et al., 1980 p. 194) aparece tão somente com o significado de pessoa da mesma pátria. O vocábulo não era comum nos dicionários da época, mas as suas ocorrências literárias, inúmeras, indicam a dominância da primeira aceção, sem, contudo, eliminar as ambivalências. Parece, portanto, que Maia Ferreira, nesta dedicatória a Joaquim Luiz Bastos, aproveita o significado principal com a vantagem de poder justificar-se com qualquer outra aceção (no caso de o significado primeiro lhe trazer problemas). O mesmo terá feito, poucas décadas antes, outra figura de transição, Hipólito José da Costa, no Correio brasiliense. É com, no mínimo, a mesma ambiguidade que ele, abrindo a publicação (1808), se refere "aos meus compatriotas brasileiros". Em 1819, no mesmo seu periódico, fala do "Brasil, a nossa pátria" em paralelo com a "América Espanhola", cuja independência apoiava. 

E quem era este compatriota? Um português? Não. Melhor: tão português quanto Maia Ferreira, porque nasceu em Angola e no país vivia, descendendo de ‘brasileiro’. Ao contrário de Maia Ferreira, tanto quanto sei Joaquim Luiz Bastos nunca viveu fora de Angola. Um filho seu matriculou-se como voluntário na cadeira de "Oratória, Poética e Literatura Clássica sobretudo a Portuguesa", no ano letivo de 1853-1854, no Liceu de Coimbra, sendo aluno do professor Borges de Figueiredo; o mesmo filho (não se indica filiação mas ele tem o nome do avô) - António Luís Bastos - matriculou-se em Direito na Universidade de Coimbra em 1854 e por lá esteve até, pelo menos, 1859. Não tenho, porém, notícia de que o pai o tivesse acompanhado a Portugal. Apesar de ser mestiço (filho e neto de um pernambucano, a sua mãe era uma parda livre angolana, segundo Pacheco (Pacheco, 1992, p. 59)), chegou a governador de Benguela, numa escolha polémica na qual o historiador (e funcionário do Ministério do Ultramar) Luz Soriano desempenhou um papel fundamental. O próprio Luz Soriano conta a história nas suas memórias (Soriano, 1860 p. 592 ss), que julgo terem circulado por Angola e cuja reedição está disponível em rede e a minha frase ("apesar de ser mestiço") foi tirada dessas memórias, pois lá parece que o único obstáculo à nomeação do “compatriota” era o facto de ele não ser branco: “posto que não deixasse de ponderar o inconveniente de ser o nomeado homem de côr, tendo por outro lado a fama de honrado, e de grande inimigo dos que defraudavam a fazenda publica.” (Soriano, 1860 pp. 593-594) Não só tinha fama disso, como também contava, entre os apoiantes (o que Soriano desconhecia) vários filhos da terra acusados de lusofobia (Pacheco, 1992, pp.59-60).

Havia nessa altura outro candidato ao cargo. Tratava-se de um negociante, político e funcionário colonial corrupto, o ex-governador Tavares de Almeida, demitido por isso mesmo, por praticar preços artificias em seu favor e em desfavor do Estado e por ligações ao tráfico negreiro – sendo estas denunciadas pelos ingleses (Soriano, 1860 pp. 592-593). Tavares de Almeida não procedia sozinho, contando com significativas influências em Portugal e vários comparsas locais. Ora, segundo documentos transcritos parcialmente por Carlos Pacheco (1992, p. 55), Maia Ferreira colaborou nas denúncias ao ex-governador e precisamente no que diz respeito aos “excessos monstruosos nos preços”. Ele substitui, provisoriamente, o cunhado e amigo José Justiniano da Cruz Forte, recém-casado com sua irmã Ana (não confundir com a meia-irmã, Ana Maria da Silva Maia, filha do mesmo pai em casamento com D.ª Bernarda da Costa Feio, natural de Luanda e que entretanto falecera; esta meia-irmã era casada com Luís de Queirós Monteiro Regadas, homem rico, maçom, que foi também, com ela, para o Brasil mais tarde). Ocupou (por escasso tempo, interinamente) a função de subdelegado aprecebeu-se de algumas das negociatas existentes e denunciou, como testemunha, quando foi chamado a isso. Tavares de Almeida usou todas as manhas e influências que pôde, mas, por ser corrupto e estar comprometido com o tráfico ilegal de escravos, foi preterido, com parecer de Luz Soriano e dos ingleses. E abro aqui um breve parêntesis apenas para sublinhar de que lado estava Maia Ferreira nesse episódio e o quanto, mais uma vez, isso nos mostra que ele não perfilhava a corrupção generalizada na colónia, nem (pelo menos nesse tempo) as opções esclavagistas do pai (a que mais tarde, em 1855, chamou “o melhor e o mais infeliz dos Pais”[18]), sobretudo não estava do lado dos comerciantes portugueses apoiantes de Tavares de Almeida. 

É certo que Joaquim Luiz Bastos, o seu conterrâneo e amigo, havia de ser acusado, em 1856, de comprometimento em um embarque ilegal de escravos, feito para um navio dos EUA. Pelos anúncios do Boletim oficial vemos também que Joaquim Luiz Bastos se fazia acompanhar, regularmente, por escravos (o número máximo que li foi de quatro). O próprio irmão mais velho de Maia Ferreira, António, guarda-livros de profissão, morreu no interior de Benguela envolvido no trato horrendo, segundo alguns. O negócio, a posse e o tráfico envolveram, durante muitos anos ainda, quase toda a elite local nesse tempo e dos dois lados do Atlântico (Delgado, 1940 p. 204). Como lembrou corajosamente Mário António, essa mesma elite que lutava contra Portugal e contra a escravatura, nos jornais por exemplo, entrou em falência técnica (os termos são meus, não de M. António) após a abolição efetiva da escravatura – tal como os dignitários de Cabinda (de uma parte de Cabinda) que assinaram o Tratado de Simulambuco. A verdade é que, em termos estritamente económicos, essa elite não tivera condições nenhumas para manter a sua riqueza, uma vez abolido o horrendo comércio, visto que perdia com isso as ligações que lhe permitiriam desenvolver operações de importação-exportação e, por outro lado, ao cortar o tráfico transatlântico, os ingleses cortaram, em grande medida, as linhas comerciais que ligavam Angola, Brasil, Antilhas, EUA e Cuba. Daí uma extrema e recorrente ambiguidade ou contradição na prática, na vida, no quotidiano – ambiguidade que o nosso poeta levou ao extremo, como passamos a ver. Entretanto, nunca o esqueçamos, até o anti-escravista Voltaire investiu numa Companhia que negociava com escravos e se congratulava com os sócios porque tratavam esses “negros infelizes” com “muita doçura e humanidade” num navio chamado O Congo (Moura, 2005 p. 398). Ele argumentava que, assim, contribuía para a evolução da humanidade (visto que os escravos eram melhor tratados que nas terras de origem, salvando-se da morte), fazia um bom negócio e ao mesmo tempo redigia um verbete antiescravista no seu Dicionário filosófico – título que circulava por estas rotas com aura de liberdade…

Em 1856 Maia Ferreira estava nos EUA, talvez envolvido ainda no mesmo tráfico (aliás, segundo Leonardo Marques entrava numa lista de traficantes, em 1855, feita pelas autoridades em Benguela (Marques, 2016 p. 57) e não sei se a acusação se prende com a que foi feita a Joaquim Luiz Bastos). Possivelmente, pelas ligações aos Figanière (que são anteriores a 1856, ao contrário do que supunha Leonardo Marques, sendo o pai, Joaquim César, o padrinho do filho de Maia Ferreira, nascido a 10.4.1854[19]), ou a negociantes portugueses dessa rede comercial, a serviço de esquemas afins para manter o estatuto social da sua família americana e da brasileira (como se vê pelas cartas disponibilizadas na Torre do Tombo), ele acabou – tudo indica – embrenhando-se no comércio infame – já então ilegal. Confrontando os nomes de comerciantes envolvidos no tráfico, fortemente relacionados com Nova Iorque e Havana, referenciados por Leonardo Marques (Marques, 2016; Marques, 2016), com os nomes apanhados em rede com ligações ao tráfico transatlântico nos mesmos anos, confrontando essas variadas fontes (transcrição de fontes primárias em rede e fontes secundárias) com as cópias das cartas guardadas e copiadas pelo próprio Maia Ferreira, conclui-se que ele esteve, nos seus anos novaiorquinos, envolvido com traficantes e negócios de escravos – não apenas de tabaco e aguardente, como tinha avançado (com as limitações da época) o historiador Carlos Pacheco. Mas não deixou Maia Ferreira, numa ambiguidade que se prolongará entre nós até quase ao fim do século (nem me pareceu, pelo tom apaixonado, que fosse para disfarçar), não deixou de criticar os EUA: “um governo que protege a escravidão, e que trata milhões d’homens como se forão o gado o mais vil” (sublinhado do autor)[20]. Entretanto, em correspondência do mês anterior (31.8.1854), narrava e comemorava a vitória dos democratas (esclavagistas), que era basicamente a aprovação do pacto Kansas-Nebraska pelas “duas Camaras”, ao fim de cinco meses de intenso debate. O pacto dava aos colonos desses territórios (considerados inóspitos) a liberdade de se decidirem pela escravatura ou não – o que foi tomado, por muitos abolicionistas, como cedência à expansão da escravatura para regiões onde não estava previsto permiti-la. 

Os abolicionistas reuniram tendências várias, que originaram o Partido Republicano atual. Entre tais tendências havia uma – os “Know-nothing” – que defendia políticas xenófobas, de discriminação contra os estrangeiros, os nascidos no estrangeiro mais precisamente. Maia Ferreira reagiu muito aos “Know-nothing”, devido precisamente à xenofobia, que o afetava desde logo. Porém, simpatizando com os Democratas do Sul, estava a defender os esclavagistas e manteve-se numa posição simpática a eles até ao fim, quando estalou a guerra civil (aliás, a partir do momento em que o território do Kansas decidiu abolir a escravatura e os Estados do Sul não aceitaram, narrando o nosso autor o episódio mais grave desse ponto crucial de maneira que parece que a arrogância do Norte é que teria reagido com excessiva musculação, provocando cisões e acirrando os ânimos). A sua posição – de que os do Norte deviam negociar de modo a acalmar os interesses dos do Sul – consolidou-se nesses anos anteriores à guerra civil dos EUA, achando que republicanos e nortistas, se negociassem, teriam evitado a guerra. Toda a posição de Maia Ferreira – que transpira e transparece nas suas cartas e nas crónicas enviadas para o Brasil – é cautelosa, mesmo ambígua no que diz respeito à escravatura que explicitamente critica, mas sempre simpática no que diz respeito aos Democratas do Sul, onde a sua rede de negócios tinha, seguramente, clientela (ele próprio se deslocava com alguma frequência a New Orleans). De resto, no Império brasileiro, ele não estava sozinho e as suas posições, em vários pontos, coincidem com as que, no momento e mais tarde, José de Alencar exporia, reunidas depois no livro O sistema representativo (Alencar, 1868 pp. 15-16). É sintomático, também, que Francisco Figanière, filho de Joaquim César (o padrinho do primogénito de Maia Ferreira), em 1866, exarasse opiniões semelhantes às do nosso poeta, explicando compreensivamente o separatismo dos Estados do Sul dos EUA, não tanto pela questão da escravatura, mas pelo domínio que vinham perdendo sobre o controlo do país, a partir do momento em que a população do Norte crescia, portanto se tornava maioritária, impondo assim uma espécie de ditadura sobre a minoria (é neste ponto preciso que as reflexões de Alencar, Figanière e Maia Ferreira se conjugam). Visto que não tinham mais controlo sobre o conjunto nacional, a separação desse conjunto era a solução para que preservassem os seus interesses e o seu modo de vida e de organização (Figanière, 1866 p. 23ss). Relativamente às interpretações comuns hoje, as teses de ambos parecem inverter os termos da questão. No seu tempo não foram, porém, raras e tinham por companhia principal a de Alexis de Tocqueville (Tocqueville, 1835), a mesma que José de Alencar leu em francês (Alencar, 1868 p. 16).

Esses negócios constituíam uma rede extensa: passavam por toda a costa ocidental africana, incluindo Luanda e Benguela, ainda em fins de 1855 e subiam até Cuba e EUA. Numa sua crónica saída no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, a 5.5.1855 (p. 1), Maia Ferreira (que escreve de lá nesse momento) fala de uma Associação chamada "Junta Cubana" e que se preparava ali uma rebelião, sendo a base da riqueza dos espanhóis e cubanos implicados o tráfico de escravos (ele sublinha "tráfico de escravos"). Os Figanière (mais ambíguos que Maia Ferreira e mais intelectualmente produtivos), para quem Maia Ferreira trabalhou e que o apoiaram em Nova Iorque, tinham sócios, amigos e compromissos comerciais com traficantes de escravos, ou negociantes que nesse tráfico, em algum momento, se envolveram. De maneira que, apesar de achar que nos EUA se tratavam pessoas como cães, o poeta serviu as opiniões dos que o apoiaram e com as quais ganhava dinheiro, aproveitando a pequena parte que lhe podia caber em tais assuntos. Porém, nos anos de 1849 e 1850, quando publicou as Espontaneidades, a passagem do nosso poeta pelos cargos públicos de Luanda e Benguela e a sua ligação a Joaquim Luiz Bastos indiciaram postura favorável aos filhos da terra, contrária à corrupção promovida pelas autoridades coloniais e contrária ao tráfico transatlântico de escravos, igualmente combatido pelos seus amigos portugueses (do tempo em que estudara em Lisboa).

Há que levar em conta, como digo, as dificuldades financeiras (suas e dos familiares). Usando palavras suas dirigidas ao irmão, em carta de Nova Iorque (datada de 8.8.1855), “à força de viver nestas terras” sem “nenhuma poesia, e onde se respira a realidade [sublinhado pelo autor] nua e crua”, terminou abandonando “as galas e florinhas da sublime linguagem de Camões” e colaborando no tráfico, mesmo investindo nele, a par dos negócios com tabaco e aguardente e ainda outras mercadorias. Leonardo Marques aponta, sobretudo, o ano de 1855 e anteriores. Quanto aos anteriores, nada sei nem presumo; quanto a 1855, a julgar pelas cartas, sim, foi mesmo nesse ano que esteve mais envolvido, e pelo menos na primeira metade do seguinte. Ele reconhece, em carta a Reis[21], datada de 22.12.1855, que os negócios em que se tinha metido lhe renderam “alguns cobres”. Após 1856 não tenho notícia de qualquer envolvimento seu no tráfico (não teria tido mais necessidade disso?), havendo, no entanto, uma carta que deixa perceber que trabalhava ainda para a firma Figanière Reis Lda, que se estaria talvez a desfazer[22]. Mas também não tenho explicação para o facto de se ter vindo embora dos EUA quando a guerra civil acabou (teria medo de sofrer as consequências do envolvimento no tráfico? Foram só as divergências com Margareth Butler que o fizeram partir? Regressou ainda com o apoio dos Figanière e ligado a eles?), sendo que ele parece, por vezes, ainda manter alguma simpatia pelos sulistas.

Por outro lado, nos anos até 1851 (os que interessam para as Espontaneidades), quer-me parecer que a sua história foi diferente e ele se manteve do lado certo da História e da consciência política, opondo-se aos compadrios coloniais e aos negreiros portugueses de Benguela que os rentabilizavam. Em consequência de todo o imbróglio e da forte aposta desses comerciantes portugueses nos compadrios ‘governamentais’, aliados ao tráfico, o mandato de Joaquim Luiz Bastos, na prática, não se efetivou. Um aguerrido grupo de comerciantes residentes em Benguela se juntou e se rebelou, recusando-se a aceitar a sua autoridade, inclusivamente com alegações racistas. O nomeado e o seu nomeador tiveram de recuar e assim terminou mais uma raridade mestiça nos altos cargos da administração colonial portuguesa em Angola. 

Era este militar, Joaquim Luiz Bastos, objeto da ira de tais portugueses, o “ilustríssimo senhor” e “compatriota” de José da Silva Maia Ferreira nas Espontaneidades e no grupo “Jovem Luanda”, formado em Benguela, de que nos fala Carlos Pacheco. Na sequência do episódio citado, provavelmente denunciados ao Governador-geral como autonomistas, alguns dos membros da “Jovem Luanda”, em particular o nosso poeta, foram mais tarde subtilmente perseguidos, afastados de cargos sob os mais diversos motivos. O seu próprio cunhado (que, também mais tarde, o desprezou completamente, conforme se queixa na carta, já citada, ao irmão Luís de Queirós), acabou sendo vítima disso, decidindo-se a ir morar para o Rio de Janeiro com mulher e filhos e sem emprego. Este aspeto me interessa mais, para a leitura do poema, que as envolvências no tráfico, resultantes da luta pela sobrevivência do seu estatuto social, que era a luta e o estatuto de uma elite necessariamente intermédia, subsistindo no trânsito e contra a negação de duas correntes de pressão social mais fundas, uma abrigada no interior ainda paracolonial, a outra estendo-se por cima do lago atlântico para as margens ocidentais.

Podemos postular que a ambivalência da palavra “compatriota” se prolonga na ambivalência do próprio estatuto de Joaquim Luiz Bastos: filho da terra, pessoa querida e respeitada no meio local (menos entre comerciantes portugueses ligados ao tráfico), possuindo uma boa imagem junto das autoridades coloniais e sendo militar do exército colonial, um mestiço descendente de ‘brasileiro’ e possuindo escravos. Era esta a mesma ambivalência do ‘Kindjango’, o famoso General Geraldo António Victor, creio que avô, ou bisavô, do poeta Geraldo Bessa Victor e penso que da mesma geração de Joaquim Luiz Bastos (oito anos mais novo do que Maia Ferreira, pois nasceu em 1835). O que mais importa: essa mesma ambivalência foi partilhada com o nosso poeta. Que, não por acaso, dedica a J. L. Bastos um poema chamado «À minha Terra».

Passemos ao poema, todo ele dominado pela sugestão de claridade, brilhante luz, irradiação de luz. Ele termina por uma anáfora que remete para o início, conduzindo-nos assim à releitura e sugerindo-nos uma circularidade.

A distribuição estrófica é regular (estrofes de 8 versos). A distribuição das rimas segue sempre o mesmo esquema: *AAB*CCB, muito comum no ultrarromantismo lusófono e consagrado pelo oficioso Tratado de metrificação de Castilho. Todo ele é ritmado por uma escansão de versos populares (redondilha maior), oscilando entre a combinação 4|3 (sílabas métricas – o sinal [|] indica a pausa), a de 3|3, a de 3|4, a de 5|2 e, mesmo, de 2|5. Se compararmos com a «Canção do exílio» de Gonçalves Dias (Vaz, et al., 2006 p. 141), também ela recorrendo aos heptassílabos, encontramos uma diferença pouco favorável ao nosso poeta (seguindo os cânones da época), pois o ritmo de Gonçalves Dias, coincidindo com a bipolaridade explorada no poema, é sempre de 3|3 – rigorosamente simétrico. Para o leitor especializado da época, os versos de Maia Ferreira iriam sugerir inabilidade ou desconhecimento das elementares regras de versificação, com prudência delimitadas por Castilho. Mas há sempre um ‘porém’, neste caso dois. Em primeiro lugar é de se notar que a instabilidade nos ritmos, na cesura interna, é frequente na sua poesia, que parece não dar muita atenção a isso; o facto coincide com uma recorrência nossa que, mais tarde, irrompe com o Modernismo em total liberdade e se manifesta numa constante oscilação rítmica e métrica, fácil de flagrar nos versos de Viriato da Cruz, Agostinho Neto, António Jacinto e outros(as). As músicas que circulavam no meio rural e suburbano tinham a mesma característica de oscilação, o paradigma que as orientava não era o da repetição e da simetria, mas o da oscilação aparentemente caprichosa, imprevisível, ao sabor da sensibilidade momentânea do artista como no jazz. Mas aqui, neste poema, há mais um motivo para se dar essa oscilação na cesura interna. A irregular ida e vinda constante entre os ritmos, assegurada a sugestão de simetria pela regularidade do esquema rimático, a sugestão de circularidade garantida pelo final atirando-nos de novo para o início, articula-se bem à cadência do próprio mar e principalmente junto à costa. Sugerem-nos, os três recursos, um som que regressa continuamente com suas pequenas modulações e variações – o som das ondas. Estrutura-se, portanto, uma sugestão sonora reforçando a impressão da imagem que se pretende. Embora não sendo recomendável essa oscilação (os versos, como começavam, deviam seguir até ao fim, ou até à mudança de modelo estrófico), o Romantismo permitia mínimas ondulações internas do verso, de resto muito exploradas por Cordeiro da Mata já no final do século. Claro que o leitor me pode fazer uma velha pergunta: o autor sabia disso? Foi consciente? Não sei. Sei que o poema permite esta leitura.

O quadro enunciativo que nos é sugerido é o do momento em que o poeta, ainda no navio, começa a avistar a sua “terra querida”. A primeira metade da primeira estrofe é dedicada exclusivamente à montagem do quadro. Olhemos com mais atenção:

De leite o mar - lá desponta
Entre as vagas susurrando
A terra em que scismando
Vejo ao longe branquejar!
O primeiro verso pareceu-me estranho, pois nomeia um mar de leite. O mar não é branco… pensei na espuma das ondas que o aproximaria da cor do leite, mas, por deformação profissional, investiguei. A expressão ‘mar de leite’ (invertida no verso, para realçar a palavra “leite”) era já conhecida pela marinhagem séculos antes do poeta. Ela indica um mar que, em noites escuras e sem lua (o fenómeno pode durar várias noites, ou apenas horas), adquire uma coloração próxima do branco, sugerindo aos marinheiros que estão a navegar entre nuvens, ou neve, e estendendo-se a impressão para o horizonte em todas as direções. As descrições dos marinheiros foram tidas por fantasiosas a partir dos séculos XVII-XVIII. Repetindo-se, porém, testemunhos sérios acerca da recorrência dos ‘mares de leite’, começou a tentar-se a compreensão científica do fenómeno. Até hoje não se explica de forma cabal, ainda que se postule, consensualmente, que se trata de bioluminescência… o mar de leite mantém, portanto (e mantinha em 1849), o poder mágico das sugestões ‘fantasiosas’ que Júlio Verne (1828-1905), vinte anos mais tarde, rentabilizaria nas 20.000 léguas submarinas: “por volta das sete horas da noite, o Nautilus semisubmerso navegava num mar de leite. A perder de vista, a brancura das águas […]” (Verne, 2000 p. 67).

É possível que, nessa aproximação à terra, Maia Ferreira avistasse (ou nos quisesse fazer avistar) um fenómeno igual, ambivalência (entre esse fenómeno ou a adjetivação do mar pela cor da espuma) que dá começo às posteriores. Em “cismando” na sua terra ele vê-a branquejar, ou por efeito da luminescência, ou porque, entretanto, amanhece e ela “desponta” no horizonte do regresso, cheia de luz cobrindo as areias brancas. Essa luminosidade é, como sabemos, um dos atributos do paraíso, do outro lado a que chegam os puros de coração depois da travessia chamada, pelos cristãos, purgatório…

Os oito versos seguintes são dedicados à adjetivação da terra, alinhada com a luminescência do começo. Ela é conotada com “ardente”, “fogo intenso” (pelo sol), “fervente” (areia), “brilho” e beleza (ela própria). Ao contrário do que sucederia a um europeu acabado de chegar, ou morador exilado e saudoso, toda esta ‘queimadura’ vem “acalentar” (no seu tempo adormecer, aninar, aplacar, consolar) a mente do poeta, em vez de o incomodar, como incomodava a Cândido Furtado e a muitos outros. Por aqui se estabelece uma primeira comunhão com a paisagem, sublinhada logo depois pela “alma fervorosa” (tanto quanto a areia é “fervente”). 

Note-se como todo este arsenal de adjetivação conota o poema com os versos de amor de Maia Ferreira (e de muitos românticos) e com a literatura mística para a qual esse amor é manifestação de outro, que religa os seres humanos à transcendência pela visão da luz no rosto, na fronte, nos olhos e pelo fogo "que arde sem se ver". Uma conotação, porém, diferenciada, se me permitirem o quase oxímoro. Porque não temos aqui o sustido e "claro fogo" de Petrarca, o "desejo louco" disciplinado por Garcilaso de la Vega, nem mesmo o "amor ardente", mas antitético e refreado na camoniana visão "clara e manifesta". Este é "fervente", fogoso, abrasado e comungado. Não há sujeito e objeto do amor, há sujeito e sujeito e fogo. A própria terra queima. Semanticamente, estamos mais próximos da vida comunitária no país, em torno da fogueira, entre danças que despertam o incêndio sensual dos corpos e acendem centelhas nos olhos, um fogoso amor que alastra de corpo a corpo sem previsão de medo, sofrimento, nostalgia, dolência... A conotação de amor e de fogo em Maia Ferreira ganha, por tanto, uma dupla vitalidade e uma nuance local que alastra no desembarque do regresso.

A primeira comunhão saía reforçada pela beleza com que a paisagem o impressionava. Começava, neste ponto, nova ambivalência: terra e mulher? É que o avistamento, afinal um tanto ou quanto fantástico a partir de um mar “de leite”, provocava no poeta “desejos de a abraçar”. Abraçar o quê? Os morros de barro, as areias escaldantes de que ele fala, com realismo, no poema «A minha terra», no começo do livro? À superfície do texto parece que sim. Abre-se, no entanto, uma isotopia erótica, nada inocente a meu ver, que vai sustentar esta imagem da chegada, ou desembarque na terra e dar uma coloração sensual à passagem (ou regresso) para o ‘outro lado’ – afinal o primeiro.

A terra, como as donzelas da maioria dos poemas, é “toda da alma”. O que nos faria pensar num erotismo nada sensual (impossível, de facto), muito pelo contrário, num amor idílico, espiritual, ideal e abstrato, que se articula precisamente com o mito de Caronte e outros mitos clássicos greco-latinos. Só que “alma” vem de “anima”, animação, e o poeta parece jogar bem com as etimologias, esclarecendo que ela é “toda-vida”. “Alma”, ali, significa “vida”, a terra ser "toda da alma" significa ser "toda-vida" (a vida verdadeira, também dos místicos). E o processo é reforçado por essa marca tipográfica, esse pequeno hífen religando pela tipografia duas palavras que deviam estar graficamente separadas na frase. O processo parece premonitório, pois vem a ser adotado (e abusado) ao longo do século XX pelos mais diversos poetas modernistas, concretistas e outros ‘istas’ desses tempos. Ele denota uma especial sensibilidade aos recursos gráficos, ainda presente no poema «Felicidade» de Cordeiro da Mata, mas não de todo ausente nos líricos do romantismo lusófono.

Essa terra “toda-vida”, regurgitante apesar de semidesértica, é desfrutada como se de mulher se tratasse, mas também usando a linguagem ambígua de místicos como Sâo João da Cruz: “entre gozos foi fruída / sem temores, nem pesar” (mais uma vez, o amor idílico representa-se realizado ali).

Tudo se passa como se fosse ele a recebê-la, quando era o contrário. Ele dá-lhe as boas vindas e pede-lhe, ato contínuo, para se deixar de “galas”. As galas eram vestuários de luxo com que se participava em festas, receções e outros eventos do género. Daí passou também a palavra a significar “jactância” (Carvalho, et al., 1980 p. 431), “ornamento”, e dela derivou “galante” para indicar uma pessoa (geralmente jovem) graciosa, jovial, gentil e bela. O galantear (mostrar as galas) passou a significar “cortejar” e “gracejar” (Fonseca, et al., [1889] p. 153).

O poeta pede-lhe para despir “as galas” que ela, “vaidosa”, lhe quer mostrar, porque mesmo “simples” (outra maneira de a dizer desértica ou singela, próxima de um adjetivo muito aplicado às mulheres locais) ela tem “fulgores” e os seus montes “primores” que “às vezes falam d’amores / a quem os sabe adorar”. Ora ninguém ouve montes a falar de amor por ter adorado esses mesmos montes. O que podia era haver ali vozes femininas a murmurar palavras doces, isso é bem mais provável, tanto que parece que Maia Ferreira foi fervoroso admirador do belo sexo. Por outro lado, aliás em paralelo, em se tratando do avistamento após uma viagem, simbolizando a viagem sobre a água um processo de purificação, como já disse esse despir de galas é uma exigência do próprio processo de despojamento pelo qual o navegante passara.

Em concordância com a adjetivação, somos levados a reconhecer que o poeta estava apenas a acentuar a conotação erótica e mística da sua relação com a terra, em particular com “os seus montes”, onde por acaso moravam os ‘indígenas’, que, prudentes, se estabeleciam no cimo das colinas arenosas e não junto ao mar. Surge, na sequência, também como passível de leitura erótica, o pedido ao “madeiro” para navegar em direção à terra amada, requalificada novamente pelos brilhos e pela beleza, aliás “radiosa”. É com essa imagem do avanço para dentro da terra que ele nos deixa ao avistar o “alto monte” (hipérbole, sem dúvida) da sua terra natal, que pode simbolizar o cume atingido no fim da iniciação e a concreção do desejo erótico também, indique ele a Fortaleza, ou o Sombreiro, ou sugira os seios da mulher, consignados num provérbio local: “duas pedras no porto / dois seios no peito” (Matadi maiadi bu tabu: Mele mu tulu – na versão trazida por Óscar Ribas (Oliveira, 2006)).

Na sugestão erótica da chegada à terra, Maia Ferreira vai mais longe, no que diz respeito à sensualidade, do que em alguns dos poemas amorosos – nos quais a paixão que a mulher desperta nele é igualmente adjetivada pelo fogo, pelo brilho, pela ardência e pela intensidade. O que traz um destaque ainda mais significativo para o seu amor telúrico. Porque, é uma verdade, o seu vocabulário (mesmo o amoroso) é muito comum na época, por exemplo quando chama a moça ou mulher amada de “anjo”, mas essa rede semântica liga o amor ao êxtase religioso - ligação tão graciosamente desmentida por Tomás António Gonzaga. Poetas houve, certamente, nessa época, esquecidos de que a mulher-anjo, que estava já nos sonetos de Camões e de Sá de Miranda sob outros nomes e descrições, era a figuração da re-ligação mística pelo amor. Ao avistar a mulher, o amante vislumbra a luz, que muitas vezes o cega, que o toma por completo. O desejo posterior, que é o da fruição, descamba muitas vezes em desejo de posse e os poetas dão nota disso, também muitas vezes, sem repararem na queda – não era o caso nem de Sá de Miranda nem de Camões, mas foi o de muitos românticos e, sobretudo, ultrarromânticos. Mas, nesta composição, temos apenas o instante do deslumbre. 

Resumindo as análises dos seus poemas feitas até aqui, difícil é não perceber até que ponto se fez sua a sua terra por esse processo de duplo (seu e dela) despojamento e entrega, bem como até que ponto lhe eram íntimas as “senhoras africanas”. Isto apenas reforça a angolanidade (promitente?) de Maia Ferreira, bem como o tratamento que lhe dei na minha pesquisa.


Outro assunto, que se articula com este, prende-se com o vocabulário usado e com a linguagem do autor. Maia Ferreira recorria ao léxico típico do ultrarromantismo lusófono, que hoje nos parece enfatuado, artificial e nada africano. Africano, de facto, nunca foi, nessa metade do século XIX, nem mesmo na maioria do léxico de Getulino – sem dúvida uma personagem que fazia falta na Angola desse tempo (de angolanos descendia o seu autor) e que recorreu a alguns termos africanos, bem como explorou a sua ‘negritude’ e os motivos da escravatura. Mas o caso de Luiz Gama – que publicou nove ou dez anos depois de Maia Ferreira, em São Paulo (Gama, 1859) - foi, fatalmente, um caso isolado no seu tempo, mesmo no Brasil e dentro da poesia abolicionista. Repare-se que o seu livro tem dois poemas introdutórios: o primeiro, seu, serve de «Prólogo»; o segundo, «Saudades do Escravo», é do abolicionista José Bonifácio, que apadrinha a obra. Quando vamos para além disso, nas trovas de Getulino a influência que avulta é do estro satírico de Faustino Xavier de Novaes, que influenciou parcialmente a nossa geração de 1878, ou do Jornal de Loanda. Além disso, grande parte do léxico e do imaginário com que o autor se envolve nessas trovas (o sabor medieval da palavra…), mesmo quando para introduzir os seus “lábios negros”, é o do “mimoso rosto da Erycina bella” (Gama, 1859 pp. 14-15). Muitas vezes ironizando sobre o ambiente semiótico do ultrarromantismo lusógrafo, ainda nessa atitude ele se filia (ou se irmana) em Faustino Xavier de Novaes, como Eduardo Neves em Angola.

Importante recordar, desde já, tal personagem nos aspetos que o ligam a nós. Faustino Xavier de Novaes, outro crítico dos escravocratas, foi cunhado de Machado de Assis, um poeta português da Grinalda do Porto e de mais publicações da terceira geração romântica lusitana. Emigrado para o Brasil, intertextualizou com Maia Ferreira, como deixei esboçado na Notícia da literatura angolana e terá influenciado o luso-angolense Eduardo Neves – o colaborador do Almanach de lembranças que desenvolveu, sobretudo em sonetos, a tipologia dos poemas bilingues de amor criados por filhos da terra. O nome e a lírica de Novaes envolviam, portanto, personagens do sistema literário (muitas delas marginais) em Angola, Brasil e Portugal. Acho que Luiz Gama também, num grau muito menor, pode ter sido lido por africanos – pelo menos em Lisboa. É possível que a leitura dessas trovas ainda fosse feita pelo santomense Caetano da Costa Alegre, na passagem para o século XX. É uma ligação a explorar, mas, mais uma vez, a marca foi tardia para Maia Ferreira, três anos mais velho que Luiz Gama e, por oposição, nascido no seio de uma família poderosa em Angola e no Brasil, na qual se incluía naturalmente o pai, rico negreiro angolense com origens (avô) na região do Porto e em famílias da terra.

O ultrarromantismo era, então, recente nos países de língua portuguesa (chamando ultrarromantismo à segunda e terceira gerações românticas, sobretudo na sua vulgarização), mas ele foi buscar, desde o início, uma enciclopédia já gasta. Mesmo o ‘ultra’, na palavra, só se justifica porque se forçava a nota exagerando sensibilidades e sentimentos artificialmente. O estafado vocabulário ultrarromântico bem precisava de se renovar e talvez uma aragem tropical africana lhe trouxesse o calor e a diversidade que ele nunca tivera e que trouxe a algumas das composições de Luiz Gama, mas não à da maioria dos ultrarromânticos brasileiros (ou dos românticos de segunda e terceira gerações). Maia Ferreira também não foi capaz disso, tal como os dias escaldantes de Janeiro ou Fevereiro decorrem tantas vezes sem nem um sopro de brisa. No entanto, nas Espontaneidades, a adjetivação, por assim dizer fogosa, ganha realce e carisma próprios a um africano. Maia Ferreira, de resto, não foi poeta invulgar e escreveu pouco (tanto quanto saiba) depois de partir de Angola. Mesmo os seus amigos portugueses, ao deporem no seu álbum, recordam o companheiro fiel, amigo, disponível – e nunca falam do poeta Maia Ferreira, que já tinha um livro publicado nessa altura.

No entanto, relembremos que o poeta era o primeiro de Angola a publicar e o ultrarromantismo lusógrafo estava no seu começo ainda. Ele não quis, ou não pôde, logo, partir para uma linguagem nova e abandonar outra que, naquela altura, estava a canonizar-se em Portugal e no Brasil. Acho que preferiu, como estratégia de mercado, penetrar com humildade agarrando o novo cânone, que era mais o sublinhar de alguns aspetos do romantismo já instalado e consagrado. Quem não o fez ainda pode ler O trovador em rede, no google, ou baixá-lo do Internet archive. Note-se que falo do periódico principal para a divulgação e a vitória social do ultrarromantismo lusitano, ou seu romantismo de segunda geração. A partir dele deve-se comparar esse vocabulário requentado com o do nosso poeta para ver que Maia Ferreira participou do nascimento e da solidificação do ultrarromantismo na lusofonia, em vez de ser um tardio imitador.

Reparem que publicou em Luanda, na tipografia do governo, pertencendo, como já disse, a uma família das que lideraram o ‘partido brasileiro’ (o deputado que, com F. do Amaral Gourgel, assinou o manifesto a favor da independência de Angola sob proteção do Brasil, em 1822, era familiar próximo de sua mãe) e elogiou o governador (de Benguela) nativo, Joaquim Luiz Bastos, cujo mandato efetivo vários comerciantes portugueses de Benguela impediram. Não tinha margem de manobra para se dar a grandes patriotismos, nem regionalismos. Por isso elogiou os heróis ‘africanos’ da história da colonização portuguesa e fez o poema em homenagem ao novo governador, Adrião Acácio da Silveira Pinto, que inicialmente lhe foi favorável. Por isso, também, elogiou a Carta em Portugal e D. Pedro – distanciando-se, portanto, do legado político do pai e aproximando-se das escolhas de amigos angolanos, brasileiros e portugueses.

Preferiu fazer a literatura canónica ou da moda, que facilitaria o reconhecimento pelos seus pares portugueses e brasileiros, para se afirmar como poeta perante as comunidades onde vivia e nas quais os emigrados e exilados portugueses eram social e economicamente significativos, alguns deles mantendo convívio com nomes importantes para a literatura em Portugal e no Brasil. Sabendo ser lido nos dois lados do Atlântico (não por popularidade, mas por ter amigos espalhados nas margens, a norte e a sul), ele escrevia com uma referência mínima, fosse a que lugar fosse, e um léxico local enfraqueceria a comunicação quando não caísse no gosto do exótico, evitado geralmente pelo nosso poeta, que só por uma vez refere o “soba de tribo selvagem” e para mostrá-lo, com muita naturalidade, sedento na desértica paisagem.

Tirando os poemas explicitamente votados à “minha terra” (repare-se que não nomeia a sua terra no título nem no poema), a localização ficava a cargo das dedicatórias, das iniciais de nomes, de qualquer uma circunstância que nos desse o quadro referencial indispensável à sugestão de concretude dos sentimentos amorosos biografados no verso. Era a um determinado quadro social que se dirigia, fazendo-o, no entanto, em segredo, pela discrição exigida pelas damas e condicionada pelos mexericos de salão (daí pessoas referidas apenas por iniciais, outra prática vulgarizada nesse tempo). Naturalmente que é desse quadro, social e pessoal, que temos notícias, através da menção a álbuns, senhoras e meninas que sabiam reconhecer-se neste ou naquele poema, casos que a má-língua decifrava no lusco-fusco dos convívios educados.

Por contraste, nas suas crónicas enviadas de Nova Iorque e dirigidas essencialmente aos leitores brasileiros, o discurso recobrou vida, revelando um curioso e apaixonado pintor e pensador de costumes urbanos localizados (leia-se a colaboração enviada para o Correio mercantil), inserido profunda e interessadamente na política local e cubana (Corresp. do Jornal do Comercio - New York, 1855), cujos episódios salientes narrava opinando numa linguagem viva, coloquial (como se falasse, reforçava em carta a A. J. Miranda Falcão, chamando em seu favor Boileau e António Vieira), mas nem por isso pobre ou desprovida de cuidado, sempre dirigindo-se ao(s) leitor(es), aliás num tom familiar e dialogante. O objeto para a reflexão é, no caso, a sociedade norte-americana, por tabela a cubana, mas aquela o motivo central das crónicas, porque se tratava de dar notícias dela aos leitores brasileiros. Ou seja: quando a solicitação pedia e o género aceitava, Maia Ferreira localizava até estilística e lexicalmente os seus textos... em prosa. Nesses casos, o léxico podia refletir o meio circundante (repetindo-se palavras inglesas como bill, integradas já no português quotidiano do autor, pelo que se percebe, tal como – bem menos – algum francesismo). Respeitando o contexto, os textos eram tendencialmente curtos (o jornal tinha pouco espaço para mais) e os retratos de costumes continuavam sendo figurados por traços e frases enxutos, apenas suficientes, sem luxo de adjetivos ou detalhes e minúcias.

Na lírica das Espontaneidades, esta secura na referência traduz a própria secura da terra (a de Luanda e Benguela no seu litoral). As marcas, porém, de cunho local apareciam por onde menos o próprio esperasse, o que demonstra que as reteve e isso é importante para os militantes analistas das identidades – dos quais, confesso, cada vez me pretendo afastar mais. 

Nesse aspeto é oportuno espreitar aqueles pormenores das vestes a que o próprio elegante, muitas vezes, nem liga. Por exemplo, a colocação dos clíticos nessa roupagem vocabular. Escrevendo um português “de lei” – ou seja: canónico, europeu – Maia Ferreira tinha ‘deslizes’ iguais ou semelhantes aos de Cordeiro da Mata, que só estudou na escola (primária) onde o pai foi professor. Esses ‘deslizes’ prendem-se com uma colocação dos clíticos típica do Brasil e de Angola. Leia-se, por exemplo, na última estrofe de «Eu ouvi!», o segundo verso (Ferreira, 2002 p. 69):
E triste e pungido por este escutar
Que tanto extasiou-me, porque era saudoso –
A passos mais lentos, que a dor que sofri –
Deixei, apartei-me do canto harmonioso!
Nenhuma conveniência métrica ou rítmica pressionava no sentido de colocar o “me”, que fica depois de “extasiou” (o “me” não faz falta à frase, está pressuposto; o verso é um bipentassílabo, ou decassílabo composto, pelo que esse “me” não é uma unidade métrica, sendo comido no final do primeiro hemistíquio). Naquele contexto frásico, trata-se de um marcado procedimento não-europeu. No entanto, foi assim que ficou escrito.

O mesmo encontramos nas duas estrofes iniciais de «Uma recordação!» (Ferreira, 2002 p. 46). Ou seja, apesar da opção por uma linguagem canónica e europeia, que dominava pelos estudos feitos em Portugal, a vivência local (angolana e brasileira) furava o cerco e manifestava-se, de quando em quando, no léxico (usava, por exemplo, a palavra “negócio” com as funções semânticas que tem, hoje ainda, no Brasil) e na sintaxe. Embora mesmo nas suas cartas fosse completamente fiel à norma, numa delas, enviada sintomaticamente à mãe, tem um deslize para a nova norma, brasileira e angolana. Queixando-se da ausência de notícias dela, pergunta-lhe: “será porque casei-me?”[23] Em outra carta, esta enviada como crónica aos redatores do Jornal do Comércio, para publicação, escreve: “estará lembrado de que falei-lhe na mª sobre o General Alvarez”[24] (na vez de “estará lembrado de lhe falei na mª sobre o General Alvarez”).

De qualquer modo, cientes do ambiente biográfico e bibliográfico no qual se formou o poeta e amante angolano, mudaremos seguramente a perspetiva com que lemos aqueles versos antigos. E estaremos prontos para explicar porque não surgiu com ele, nem se antecipou, nenhuma forma de tarzanismo, traço narrativo que não marcou a nossa produção literária. Por agora, basta olharmos as circunstâncias mencionadas e sugeridas nas Espontaneidades para repararmos que a motivação poética de Maia Ferreira se distribuía entre episódios amorosos e biográficos localizados em Angola e no Brasil (nos lugares onde viveu até publicar, não sendo longo o período de estudos em Portugal – um país de onde não subscreve nenhum verso). Isso também, torna-o elemento privilegiado para a pesquisa sobre a circulação de livros em Angola a partir da relação entre Luanda, Benguela, Rio de Janeiro e Recife (portos abertos a navios estrangeiros). Portanto é fundamental sabermos que livros leu quando se preparava para a vida adulta, que livros circulavam no seio da família (com ramificações em Angola e no Brasil) e nos mercados a que ela tinha acesso. Para isso precisamos de uma revisão biobibliográfica, de que farei resumo em seguida.


Os estudos inaugurais de Mário António (editado em separata da revista Ocidente em 1970) e de Gerald Moser (sintetizado no prefácio às Espontaneidades da minha alma, em 1980) são dois textos pioneiros na recuperação do sentido e do significado de autor e da obra no contexto da formação de uma literatura nova, diferenciando-se e globalizando-se ao mesmo tempo. As vias percorridas então passavam pela pesquisa biográfica, histórica e social, que dominava os estudos de Moser e, em parte, de Mário António, bem como pela perceção do significado artístico e antropológico da obra e da figura pública de Maia Ferreira. A minha perceção atual incorpora e ultrapassa as intuições iniciais do crítico de Maquela do Zombo, quer sobre a mestria técnica do poeta luandense, quer sobre os vários grupos de identificação do homem e do escritor. O que me permite fazê-lo é o manancial de fontes a que hoje temos acesso e o avanço da investigação teórica adjacente.

Explorando as investigações publicadas até hoje, confrontando-as com os próprios versos das Espontaneidades, encontramos um escritor com um vasto campo de intertextualização, multilingue, revelando leituras cultas, eruditas e atualizadas (além das clássicas, ainda importantes no seu tempo), das quais retira algum saber artístico, timidamente personalizado, pouco diferenciado. Por isso e pela idade com que realizou a maioria das tentativas poéticas. A sua crónica é mais interessante, igualmente, porque é já a crónica de um homem feito, maturado pela experiência e a deriva entre três continentes, conhecedor de ambientes diversos uns dos outros e mais fortemente personalizado nessa crioulização amadurecida pela realidade crua, como disse ao irmão.

A atualidade e largueza de conhecimentos literários de Maia Ferreira choca, desde logo, com a imagem costumeira de uma Angola pobre em bibliotecas e, portanto, com poetas que eram leitores subalimentados e com leitores que usavam livros para adormecer nos intervalos do tráfico de escravos. Veremos que essa atualidade e largueza não se devem somente à formação do poeta no Brasil e em Portugal. Ao sair de Angola, com sete anos, ele seguia embalado num berço familiar culto já, que sabia muito bem que livros ler, que livros procurar e onde os encontrar.

A formação literária de José da Silva Maia Ferreira torna-se, por isso também, nuclear neste contexto. Já possuíamos alguns contributos para estudá-la. Salvato Trigo, num capítulo sobre a presença das letras francesas no século XIX em Angola (Trigo, sd pp. 102, 112-113), aponta pistas que, tal como as deste trabalho, extravasam as da obra de Maia Ferreira e, por isso, foram-me úteis ao longo de toda a pesquisa. Particularmente faz notar em Maia Ferreira influências de Hugo (poeta marcante para todo o nosso século XIX) e Lamartine (um dos românticos da Restauração, na classificação talvez redutora de Teófilo Braga; vertido para português por Alexandre Herculano e depois por muitos poetas[25] e referência muito importante para Gonçalves Dias). Entre os portugueses encontramos Garrett, Castilho (Ferreira, 1980 pp. 95-100), mas também o prerromântico Bocage (Ferreira, 1980 p. 93) e o talassa João de Lemos, referência inevitável do ultrarromantismo apesar de antiliberal, citado ainda num poema de Cândido Furtado de 1881. Acrescento às referências de Salvato Trigo, para registar os principais epigrafados e mais algumas intertextualizações, as seguintes, comentadas na sua relação com as Espontaneidades:

· Dante, convocado pelo início do poema «Revelação de um sonho»: “Sangue! Sangue! – Do inferno horríveis cenas”.

· André-Marie Chénier (1762-1794), de que se tira uma epígrafe nas Espontaneidades (Ferreira, 2002 p. 137). Chénier nasceu em Istambul, mais precisamente a 30.10.1762 em Galata, subúrbio rico de Constantinopla, onde o seu pai (Louis Chénier) era cônsul de França. A mãe (Elisabeth Santi Lamarca) era grega, o que talvez tenha reforçado nele, a par do clima da época, a leitura interessada dos clássicos gregos (e latinos, em particular Virgílio, que estaria “por todo o lado em sua obra” (Chénier, 1907 p. 8)), criando especial afeição pela poesia elegíaca.

Um dos pontos polémicos em torno da sua receção no século XIX gira em torno desse classicismo, com os críticos em dificuldades perante a sua colocação no seu tempo (como neoclássico) ou no seguinte (como romântico). À semelhança do que fizeram depois com Bocage, em Portugal, também Chénier foi várias vezes apodado de prerromântico, precursor do Romantismo, tornando-se a colocação consensual em meios escolares. Ora o seu tempo é que foi o tempo da transição. O neoclassicismo, tal como se desenvolveu em Portugal e mesmo no Brasil (onde inaugurou, timidamente embora, uma ‘cor local’), não é o mesmo de Hölderlin (1770-1843). Hölderlin e seus amigos considerados pensadores românticos (Schiller, Hegel, Schelling), ou escritores prerromânticos como Göethe, não terão chegado a ser isso, como Bocage também não foi. Mas a lírica do poeta da Suábia faz a síntese do seu tempo: olha para os clássicos a partir de dentro, vive o classicismo grecolatino a partir do sentimento contemporâneo. Longe ficamos, portanto, da imitação dos poetas antigos. O que se procura é a sua fundamentação, a origem íntima dessa poesia antiga e descobre-se que ela existia para, através de ficções comuns (ou mitologia), falar do que se estava a sentir e pensar nesse momento, personalizando assim as figuras mitológicas em cada poema. Hölderlin viu os clássicos como Villemain (1790-1867), vinte anos mais novo, percebeu os oradores antigos da Grécia e de Roma: pela vivacidade que mantinham ou que sugeriam, pela articulação com a própria natureza humana, de maneira que as regras de composição dos seus discursos eram regras de articulação entre discurso e psicologia. Ao fazerem isto, poetas como Hölderlin e retóricos como Villemain abriam uma porta para o Romantismo quando vivificavam, pelo presente e pela intimidade, o Classicismo. 

Nesse contexto, André Chénier é um poeta característico do seu tempo e, como tal, é-o também de forma personalizada. Ele revisita o legado antigo da Grécia e de Roma a partir do sentimento, da atualidade, do quotidiano mesmo. É o que faz, por exemplo, com a aparição de Homero na bucólica «L’aveugle». Certeiramente, Derocquigny a coloca na abertura das Poésies choisies para a edição da “Oxford at the Clarendon Press” (Chénier, 1907). Porque é uma composição emblemática do classicismo e da contemporaneidade do poeta. No começo temos uma cena de rua tal como viriam a surgir idênticas em Victor Hugo. Só no final se revela o nome da personagem, fazendo com a referência clássica (e mítica já) a chave de ouro do poema. O que Hölderlin faz pelo íntimo, Chénier faz pela narrativa. Hölderlin mostra-nos que o sentimento, em particular o Amor, é a razão dos deuses; Chénier mostra-nos como eles imergem na nossa realidade e, portanto, como se eleva a partir dela a sua conceção. Na literatura portuguesa, essa atualidade existe (à sua maneira, ou seja, intelectualizada) em Filinto Elíseo, mas sem o íntimo e sem a narrativa. De resto, a maioria dos neoclássicos portugueses (incluindo muitas vezes o sentimental Bocage) o que faz é desfilar referências a deuses e deusas e ninfas de papel artificialmente, vivendo apenas de evocar (imitar) uma literatura antiga.

Compreendida assim a maneira de Chénier, acho que perde o sentido querermos classifica-lo como clássico, neoclássico ou romântico.

Chénier foi também jornalista político, seriamente se envolvendo no grande acontecimento do seu tempo. Tomou uma posição moderada (mas firme) em defesa da liberdade, contra os radicais monárquicos e os revolucionários. Expondo-se muito, acabou guilhotinado dois dias antes de Robespierre cair e de cessarem, portanto, as execuções. A sua biografia foi recontada como a de um herói modelar por Chateaubriand, em O génio do cristianismo (1802), por Saint-Beuve em Joseph Delorme (1829) e por Alfred de Vigny em Stello (1832). Umberto Giordano, que hoje desconhecemos mas foi um compositor muito popular de óperas, compôs uma com o seu nome em 1896, que fez furor na época. A receção de Chénier ao longo do século XIX fez dele, na cultura europeia, um herói-poeta elegante e doutrinado, em luta pela liberdade contra qualquer tirania (‘progressista’ ou ‘reacionária’).

Mas não só. Mais importante que isso, para nós, a receção literária: a primeira recolha das suas líricas veio à luz em 1819 (25 anos depois da morte), tornando-se um sucesso absoluto nas décadas seguintes, apesar do equilíbrio clássico, precursor do parnasianismo (e como tal reconhecido, logo em 1840, pelo jovem Leconte de Lisle). Sublinhe-se, aliás, que foi referência, quer para românticos, quer para antirromânticos. O seu alexandrino, incorporando bem sinais de fala e de salão, com variações pontuais no ritmo interno de cada hemistíquio, ou mesmo alternando a habitual e simétrica divisão do dodecassílabo composto com o ritmo ternário (4|4|4), variações articuladas intermitentemente com enjambements ou transportes (de que faz usos gráceis), não cai na repetição mecânica e sonolenta que veio a tornar-se comum em alguns líricos franceses e, de quando em quando, em alguns lusófonos também. Ao lê-lo, Maia Ferreira continuava no coração do seu tempo literário e reforçava uma tendência que veremos engrossar entre nós ao longo do século: a de serem lidos escritores politicamente moderados e defensores da liberdade, como também o foram Chateaubriand e Victor Hugo.

Além disso, a tendência que revela Maia Ferreira para não respeitar as canónicas segmentações internas do ritmo, aconselhadas por Castilho, via-se reforçada na leitura do malogrado elegíaco francês. A crítica francesa ressentiu-se disso logo em 1819, embora reconhecesse em Chénier um verdadeiro poeta. Diversas passagens dessa crítica foram recuperadas e inseridas na introdução à edição inglesa de Jules Derocquigny (Chénier, 1907). Vários críticos consideravam as suas inovações linguísticas e versificatórias como “incorreções”. As inovações linguísticas não passaram para Maia Ferreira, mas as variações métrico-rítmicas sim. Nomeadamente o acusavam de “multiplicar as cesuras e romper os seus versos por bruscos enjambements”. Acusam-no de fazer isso por querer inovar a todo o custo. Raynouard critica igualmente a “versificação fragmentada” (brisée) e Victor Hugo, que viu na sua obra o grande poder de inovação, resumia e assumia todas as críticas anteriores. Ora, justamente, se Victor Hugo tivesse escutado mais a sua intuição de que “cada um dos defeitos do poeta […] é talvez o germe de um aperfeiçoamente para a poesia”, teria evitado os alexandrinos monótonos e mecânicos que usou. De facto, os defeitos apontados eram, geralmente, virtudes inovadoras e o conservadorismo crítico não percebeu, como quase sempre. Destaca-se, entre esses críticos, o também tão mal compreendido Villemain que, em 1828, comentando a edição de 1824 (de Charles Robert), dizia ter Chénier feito para a lírica o mesmo que Bernardin de Saint-Pierre fez para “a prosa”: levou-lhe o colorido (as cores, “le coloris”) pela simplicidade. Nesse mesmo ano, Saint-Beuve apaixonou-se pela poesia de Chénier e considerou, justamente, que ela iniciava uma nova época (Chénier, 1907) – em França, claro.

O que vemos na lírica das Espontaneidades, no que aos ritmos diz respeito, é uma extrema habilidade que inova e desregula os ditames de Castilho. Castilho aconselhava os candidatos a poetas a não inovarem muito, porque é muito difícil inovar sem cair no ridículo. Daí, todos os seus seguidores partiram para a canonização fiel e firme das regras do Tratado de metrificação. Certamente que, de entre eles, os amigos de Maia Ferreira olhariam para o seu verso e, constatando as inúmeras variações em relação ao Tratado, muito em particular no que diz respeito aos acentos e cesuras internos, terão concluído que o nosso poeta seria tosco, escrevendo assim talvez por ignorância ou por falta de habilidade. Mário António, pelo contrário, percebeu nele o versejador ágil e variado que também foi. De facto, o que ele fazia era, mantendo a métrica, personalizar os ritmos internos. Penso que as inovações rítmicas e versiculares de André Chénier terão contribuído para que Maia Ferreira fizesse os versos que fez. Com muito menor intensidade usou o nosso poeta o transporte (ou enjambement) como Chénier, recorrendo moderadamente a essa figura de suspensão, como na primeira estrofe de «À saudade» (Ferreira, 2002 p. 53), ou numa composição dedicada a seu amigo, o também poeta A. P. da Costa Jubim (Ferreira, 2002 pp. 142-143). Com a mesma moderação (ainda que mais parcamente) fazia algumas elisões e cortes rítmicos (Ferreira, 2002 p. 123):
Não temas – que eis ali terra
Onde nasci – a brilhar.
Repare-se que a passagem parece ainda inábil por outro motivo, pois a frase devia ser "que eis ali a terra / Onde nasci". Mas a aparente imperfeição também forma uma frase comum para dizer que se avista terra. O enjambement reforça a surpresa, o inesperado de "onde nasci" depois da frase "eis ali terra". 

Aquelas imperfeições, ou rudezas, que os amigos terão notado nele (nunca o referindo como poeta, penso que este era um dos motivos) não seriam prováveis em autor que revela tanta leitura e tão madura, como se vê pela propriedade com que puxa para epígrafes versos e poemas de outros. Infelizmente, isso não o tornou mais feliz ou inovador quanto às imagens, às metáforas e analogias que ia buscar a um cardápio desgastado já pelo uso, mas que era o comum nos seus contemporâneos, não só nele. Num século em que, progressivamente, a importância da imagem poética foi crescendo e a importância dos ritmos foi diminuindo, isso tornou-se fatal. Mas, realmente, não pode haver grande poesia com fracas imagens…

A epígrafe de Chénier nas Espontaneidades encima o poema «Um pensamento!» (Ferreira, 2002 pp. 137-139). O poema foi dedicado a Francisco Joaquim da Costa e Silva, figura política destacada na monarquia liberal e conde de Ovar, a quem, possivelmente, Maia Ferreira faz a dedicação para agradecer algum favor: “tributo de amizade e gratidão” (Costa e Silva tinha mais um ano que Maia Ferreira; no ponto seguinte esclareço a relação entre eles). Há uma gralha, que não sei se vem da página que Maia Ferreira leu, pois aparece, no fim do verso, “meaux” (nome de uma cidade francesa) em vez de “maux” (males). O verso inicia o fragmento V dos «Fragments d’Élégies» (Chénier, 1840 pp. 151-152), um curto poema que, nessa edição, tem numeração e dois quartetos separados (em outras edições aparece uma estrofe de oito versos e sem numeração), com rimas emparelhadas. O seu conteúdo adapta-se perfeitamente ao poema de Maia Ferreira, que por sua vez reitera a um amigo a recordação de um caso seu de amor puro e fatal, como veremos em seguida, falando nas epígrafes de Delphine Gay de Girardin.

·  Delphine Gay, ou Delphine de Girardin (1804-1855), esposa de Émile de Girardin (1806-1881), que foi um dos nomes patronímicos da imprensa escrita francesa no século XIX. Ela era também chamada, por isso, Mme Émile Girardin, como faz Maia Ferrreira em uma das epígrafes (Ferreira, 2002 p. 105). Delphine recebeu seu nome próprio pelo título homónimo de uma obra de Madame de Stäel publicada em 1802. A sua mãe, que sobre ela exerceu grande influência, a incentivava como escritora e estava bem relacionada na sociedade literária francesa. Sophie Gay (cujo nome de nascimento era Nichault de la Valette) arrendara uns quartos, na sua casa, a Germaine de Stäel, que aí morreu. Foi amiga e conviva de Chateaubriand, Lamartine, Benjamin Constant e Mme Récamier. Ela própria fez crítica (defendeu a Delphine de Mme de Stäel no Le journal, de Paris, em 1802) e escreveu narrativas, constando uma delas do nosso corpus, Elleonore, saída em 1844-1846 em Bruxelas e enumerada no catálogo da biblioteca Fluminense.

Falo na mãe de Delphine porque ela era importante na poesia da filha. Não só, especificamente, a sua mãe – figura de companheira, confidente, amiga, nisso diferente da figura da mãe para Maia Ferreira. A partir da sua mãe, Delphine Gay generaliza uma figura maternal que recorre variamente nos poemas e recorda a importância que tinha a figura da mãe para Maia Ferreira. Em ambos os casos a ternura e a figura materna são conotadas; em ambos os casos, também, a figura materna e a da pátria surgem juntas; em ambos os casos, finalmente, a figura da mãe se idealiza. No resto, são diferentes. Em Maia Ferreira, por exemplo, a referência à mãe surge menos vezes e sempre idealizada; em Delphine de Gay surge mais vezes e mais concretizada.

Delphine foi poetisa, ensaísta e cronista muito considerada na época, sendo a vivacidade, a melancolia, a graciosidade e a ironia algumas das caraterísticas do seu estilo, não inteiramente estranho ao de Maia Ferreira, sobretudo o Maia Ferreira das crónicas de Nova Iorque. Escreveu também peças de teatro, incluindo comédias. Os folhetins, que assinou sob o nome de “Le Vicomte Charles de Launay”, no jornal La presse, entre 1836 e 1848, foram reunidos em Lettres Parisiennes, incluídas depois nas Oeuvres complètes, prefaciadas por Théophile Gautier. Eram, na verdade, crónicas sob a forma de cartas, que se tornaram referência popular, imitada variamente no seu tempo. A primeira dessas cartas inicia assim:
Il n'est rien arrivé de bien extraordinaire cette semaine: une révolution en Portugal, une apparition de république en Espagne, une nomination de ministres à Paris, une baisse considérable à la Bourse, un ballet nouveau à l'Opéra, et deux capotes de satin blanc aux Tuileries.

As duas últimas notícias eram as que mais agitavam a capital francesa. Quanto a Delphine Girardin, terminou os seus dias, garbosamente, como Musa da Nação: era bonita, popular, educada, convivente, modesta e escrevia bem. A maior parte da sua poesia lírica em verso foi escrita ao longo da década de 1820, saindo em 1824 os Essais poétiques (Girardin, 1824), que se iniciam por um poema dedicado à mãe, e, em 1856, as Poésies completes (Girardin, 1856), bem como outras recolhas intermédias, sobretudo as Oeuvres, em 1834, edição que pode ter sido a lida por Maia Ferreira. Os Essais poétiques incluem uma elegia (de 1824) a Ourika, dedicada a “Mme la Duchesse de Duras”, em que a protagonista da famosa novela fala na primeira pessoa resumindo a sua estória e o seu sofrimento. Ora, é bem provável que Maia Ferreira tenha lido os Essais poétiques e, portanto, ouvira falar de Ourika, mais adiante comentada neste livro. No entanto, a citação que faz de “Mlle Delphine Gay” (com o nome assim escrito (Ferreira, 1849 p. 52)) é de um poema («Découragement») publicado sem data nas Poésies complètes (Girardin, 1856 pp. 314-316). O poema é centrado na própria autora, que se representa enquanto cantora de amores e sem ter nunca amado, sem ter encontrado essa alma que lhe acordasse tal sentimento – momento pelo qual aguarda melancólica. A epígrafe trazida às Espontaneidades é esta:
Miserable destin — Quoi vivre sans son âme
Méconnaître l’amour et toujours le rêver;
Parler sans s’émouvoir un langage de flamme
Peindre un bonheur sans l’éprouver.
Maia Ferreira parece responder ao poema de Mlle Delphine Gay declarando o seu amor e retratando-a. Não me admiraria que o fizesse, mas não sei se «O seu retrato!» seria o dela ou se adaptaria também ao de outra, bem mais provável. O poema das Espontaneidades não vem datado nem localizado, tal como o da inspiradora poeta francesa. Mas o que mais me interessa aqui não são pormenores biográficos extraídos do verso, é o próprio facto de o seu poema encaixar perfeitamente, como resposta, naquela composição de que extraiu a epígrafe. É de supor, portanto, que tenha lido bem a fonte.

A segunda epígrafe é de um romance em verso que também não surge nos Essais poétiques (Girardin, 1856 p. 329). A epígrafe é o título e refrão do poema («Tu ne saurais m’oublier»), sugestivo num mercado onde imperavam novelas e novelos de amor. O romance faz lembrar uma canção gravada por Roberto Carlos, composta por Erasmo Carlos e Gal Costa («Detalhes»), de tal forma atingiu o coração da literatura popular. A estrutura podia resumir-se num concurso de micronarrativas: estás feliz com outro (ou pareces estar); mesmo assim, não consegues esquecer-me. O poema de Maia Ferreira imagina uma flor (roxa) trazida de um túmulo que, no entanto, consola o poeta, avassalado por mais um desgosto de amor. Consola-o recordando-lhe que há momentos bons e maus na vida, como aqueles em que uma flor é regada e os dias em que não seja. A flor aconselha-o, portanto, a ser paciente, acreditar, esperar, resignar-se, “que a saudade tempera”. Ora o poema de Mme de Girardin dá o fundamento para essa espera e, portanto, completa, se não esclarece, o conteúdo do texto de receção.

Uma terceira epígrafe de Delphine de Girardin, cuja lírica Maia Ferreira deve ter lido com agrado, corresponde ao primeiro verso da última estrofe de «Le départ» e também não constava dos Essais poétiques, mas sim das Oeuvres (Girardin, 1834 p. 374), onde provavelmente Maia Ferreira o leu. A estrofe (mais ainda quando enquadrada no poema) justifica perfeitamente a escolha da epígrafe:
On parle à son ami des chagrins de la terre;
On confie à l'amour le secret d'un instant;
Mais, au poète aimé, l'on redit sans mystère
Ce que Dieu seul entend!
Nenhum dos outros versos da estrofe se aplicaria a um amigo que nos recorda um amor passado, uma confidência partilhada antes. O poema de Maia Ferreira chama-se «Para que me recordas!» (o nosso poeta ultrapassava Victor Hugo em pontos de exclamação!). Dedica-se a Francisco Joaquim da Costa e Silva, que (percebemos agora) deve ter sido seu amigo nos anos de Lisboa, período em que, para variar, Maia Ferreira também sofreu de “gozos” de “amores” que “igual neste mundo não posso encontrar!” (Ferreira, 2002 p. 97) – pelo menos até ao poema seguinte, que refere outro amor inigualável. Os versos da maioria das estrofes são decassílabos compostos, equivalendo, portanto, em português, aos dodecassílabos compostos dos três primeiros versos de cada estrofe de Delphine de Girardin. Por coincidência, «Para que me recordas!» reforça, pelas marcas enunciativas, uma identidade comparativa diferenciada já face a Portugal, pois o nosso poeta escreve ao amigo de Lisboa referindo “[n]o teu lindo solo! – [n]o teu Portugal!”. Não diz o nosso, mas “no teu”.

· Jacques Delille (1738-1813), filho de um amor escondido (ele só foi apadrinhado pelo pai, o advogado Antoine Montanier, ou Montagnier, pouco antes deste morrer), considerado o ‘Virgílio francês’, tornou-se desconhecido hoje no leitor lusógrafo comum. Também foi, no entanto, muito popular no seu tempo. Além da poesia, dedicou-se à tradução. A sua biografia pode ter despertado alguma curiosidade entre os primeiros românticos. Além de ‘filho natural’, tornou-se abade sem sequer ter sido ordenado padre, foi preso durante breve tempo no período do Terror (da Revolução Francesa; era contra a Revolução e muito mais ainda contra Napoleão), casou-se e fugiu para a Suíça, tendo viajado por mais alguns países. Posteriormente regressou a França. Nos últimos anos de vida a cegueira lhe acentuou a aura poética. A sua melhor lírica é marcada por um tom elegíaco partilhado com Chénier.

Bocage foi um dos seus tradutores para português, num livro publicado em Lisboa (1800, com 1801 como data de impressão) e que se vendia no Rio de Janeiro (por anúncio, por exemplo, do Jornal do comércio de 19.1.1830). Mas Maia Ferreira terá lido em francês Les jardins, ou incluído nas Oeuvres completes que também se vendiam no Rio de Janeiro na mesma altura, ou em edição isolada. A epígrafe não usa o verso completo, retira-lhe o final. O verso completo era: “Ah! si ma faible voix pouvait chanter comme eux”. Maia Ferreira retira-lhe o comme eux, que se refere a outros que não estão em jogo no poema. O poema é uma dedicação ao amigo e companheiro da Lisia poética, António Pereira da Costa Jubim, de quem se inclui um poema dedicado ao autor nas próprias Espontaneidades (Ferreira, 2002 pp. 44-45). Falo do autor e desse seu poema em outra passagem deste livro, a propósito da filha de Maia Ferreira (v. acima). Na composição que Maia Ferreira lhe dedica (Ferreira, 2002 pp. 142-143) ele retoma, nas estrofes inicial e final, uma estrutura poemática de que falo também em outro momento (“Se eu fora qual Cícero forte clamara”). O que fica entre essas duas pontas é uma longa estrofe de versos brancos ou com rima casual, todos decassílabos heroicos (ainda que dois ou três forçados), equivalentes (em português) aos alexandrinos franceses de Delille. Essa longa estrofe é um rasgado elogio à poesia do amigo e combina bem com o elogio dos grandes poetas e dos grandes arquitetos de jardins de que fala o seu intertexto até ao verso em questão, um verso do meio da oitava estrofe do canto I de Les jardins ou l'Art d'embellir les paysages (Delille, 1835 p. 13). Mais uma vez observamos, lendo o poema de origem, a perfeita escolha e colocação da epígrafe, o perfeito encaixe do poema de chegada no de partida.

· Millevoye (Charles-Hubert Milllevoye, 1782-1816) – um poeta de transição entre Neoclassicismo e Romantismo, com pouco significado mesmo na época. Maia Ferreira acabou tendo alguma semelhança biográfica com ele, que também era particularmente votado ao belo sexo e, tendo uma filha resultante de uma fortíssima paixão com casamento interdito, perdeu a filha muito cedo. Morreu por uma queda de cavalo, o que não terá acontecido com Maia Ferreira. É colocado na sequência de André Chénier.

A presença deste nome nas epígrafes de Maia Ferreira assinala uma diferença entre o corpus estudado, onde ele não tem qualquer relevância, e a realidade da leitura do século XIX, mais ampla.

Os dois versos que servem de epígrafe a «A queima do bosque» (Ferreira, 2002 pp. 70-71) vieram de um dos poemas mais lidos de Millevoye, «La chute des feuilles», elegia da qual há três versões. Todas constam das Oeuvres publicadas em 1840 (Millevoye, 1840), uma data provável para terem sido lidas por Maia Ferreira, quem sabe em Lisboa. Os versos que o nosso poeta aproveita são da versão com que o francês abre o livro, pois na segunda versão, modificada ainda pelo autor, eles estão mudados, como dou conta abaixo e, na que aparece em terceiro lugar mas como “Première version”, não encontramos esses versos. Na epígrafe eles terminam com ponto de exclamação (para variar!), o que não sucedia no original, em que terminavam só com ponto. Na edição (das Espontaneidades) da IN-CM está “le pâle”, mas por gralha, pois na edição de 1849, ou 1850, está “la pâle” como nas Oeuvres: “Plus pâle que la pâle automne / Tu t’inclines vers le tombeau”. Estes versos aparecem, na segunda versão de Millevoye, transformados em “Plus pâle qu’une fleur d’automne / Tu t’inclines vers le tombeau.”

A elegia, com suas três versões, abre o livro primeiro das «Élégies», com que se iniciam as Oeuvres (Millevoye, 1840 pp. 1-6). Ela exemplifica bem a colocação intermédia do seu autor entre Classicismo e Romantismo, pois os motivos e o tema são focados romanticamente, enquanto a forma se mantém de uma sobriedade clássica. O poema de Maia Ferreira é uma reestruturação do de Millevoye, acrescentando-lhe uma queima do bosque, abolindo a referência à mãe e modificando mais alguns aspetos. O resultado é mais desesperante ainda, os tons pessimistas e românticos (lúgubres) saem acentuados, justificando o nome de Ultrarromantismo para a escola que o nosso poeta seguia. No aspeto formal, as variações métricas e rítmicas mostram-nos uma escola já posterior à de Millevoye, alternando entre metros de sete e cinco sílabas, com variações acentuadas nos ritmos internos.

Para o que nos importa aqui, vemos que Maia Ferreira sabia muito bem de que poema tirava a epígrafe, como já observámos nos casos anteriores. Note-se que os versos são do meio do poema e todas estas epígrafes, tão corretas, nos colocam, portanto, uma dúvida: será que o poeta viajava sempre com esses livros e podia conferir as citações? Será que sabia de cor esses poemas? É que não são passagens atiradas ao acaso para o topo da página, aproveitadas a partir de uma ligação qualquer entre a passagem, isolada, e o intertexto. Os poemas de resposta são isso mesmo: respostas que respeitam a memória das composições onde se vai buscar a epígrafe.

Falta ainda nomear dois autores: 
· Gonçalves Dias, que iremos reconhecendo cada vez melhor ao longo deste livro e que o leitor comum sabe quem foi, também comparece entre os epigrafados. Uma vez que dele falaremos em secção própria, dispenso-me de o fazer aqui.  
· João d’Aboim, ultrarromântico já comentado em Notícia da literatura angolana, que também já referi nestas páginas e reaparece vezes nas seguintes.
Ficou especialmente registada a convivência literária do poeta com o jornalista e lírico João d'Aboim no Rio de Janeiro, como atrás mencionei. Por intermédio de João d’Aboim, Maia Ferreira terá conhecido Gonçalves Dias, de quem glosa um famoso poema nativista («Canção do exílio») a partir, justamente, de outra glosa, da autoria de João d’Aboim. Note-se que tudo isso aconteceu já depois de o poeta estar em Angola, após o seu primeiro regresso. Recordemos que, por exemplo, a 16.5.1846, “anuindo á proposta do Dr. Físico Mór, e Prezidente da Junta de Saude da Província”, se publica a sua nomeação para “Secretario interino da dita Junta, não tendo direito a vencimentos alguns em quanto não for organizada a respectiva Secretaria” (Governador Geral, 1846 p. 1); em 19.12.1846 se publicou a Portaria em que foi nomeado “secretário, interino, da Comissão Mista de Luanda” (Governador Geral, 1846 p. 1003), cargo em que teve desempenho elogiado, o que vincou a sua postura anti-esclavagista (pelo menos na época).

Lendo a biografia traçada por Carlos Pacheco, podemos registar as várias viagens entre Luanda e Rio de Janeiro e nas minhas próprias investigações confirmei duas delas, com pequenos ajustamentos, relativos a dia e mês. Foi numa dessas viagens, em que a permanência na capital carioca se arrastou mais, que o poeta encontrou João d’Aboim, tal como, suponho que através dele, Gonçalves Dias.

João d’Aboim foi para o Rio de Janeiro a 2 de agosto de 1848, como disse, levando uma carta de apresentação de João de Lemos para Gonçalves Dias. Antes de partir, frequentava em Lisboa meios jornalísticos e literários ligados ao Ultrarromantismo, sendo chegado amigo de Bulhão Pato. Como já mencionei, Bulhão Pato e Maia Ferreira conheceram-se em Lisboa, para além de serem todos amigos e admiradores de João de Lemos. Apesar da amizade com este último, Bulhão Pato e João d’Aboim pertenciam à ala esquerda do liberalismo português, que vibrou com a revolução de 1848 em Paris. Emilio Augusto Zaluar, João de Aboim, e Souza e Almada, juntamente com Bulhão Pato (bem mais jovem), além de planos políticos “faziam versos, românticos, descabellados; porém com chispas de talento” em 1848, portanto pouco antes da ida do jornalista para o Rio de Janeiro. Foram eles que promoveram a estreia de Bulhão Pato num jornal de Lisboa. Zaluar foi também, não sei se com João d’Aboim, para o Brasil, “onde esteve largos annos, alcançou nome litterario, justamente festejado” e se naturalizou. Foi após uma rixa, derivada ainda de um combate militar e político (no “Alto do Viso”), que João d’Aboim, tendo levado duas cutiladas na cabeça e ficando quase morto, partiu para o Rio (depois de recuperar a saúde, é claro). O seu regresso a Lisboa deu-se “no Verão de 1851”, segundo Bulhão Pato (Pato, 1894 pp. 39-40), como também já referi. No Rio, para além da publicação dos dois livros de poesia (O livro da minha alma; Saudades da minha pátria), cofundou ainda o periódico literário Beija-flor (7-4-1849 – ?-9-1850, com Joaquim Norberto de Sousa e Silva e Floriano Alves da Costa), já depois da colaboração no Museu pitoresco, que saiu nessa capital entre Janeiro e Dezembro de 1848 (Sant'Anna, 2010 p. 16). 

Além destes três autores, João d’Aboim elogia muito Araújo Porto-Alegre, um dos diretores de Guanabara, da primeira geração romântica brasileira, dedicando-lhe mesmo «Um gemido de gratidão». Ele era amigo de Braz Carneiro Leão, dedicando-lhe um poema por seu falecimento. Carneiro Leão é nome de família recorrente nos anúncios do Diário de Pernambuco por mim lidos. Curiosamente, Braz Carneiro Leão, junto com José António Viana, são repreendidos por um anúncio do Jornal do Comércio (16-1-1830) por, ao virem de Buenos Aires, havendo-se dado o desembarque a 2 de janeiro, ainda a 16 não terem ido ao navio recolher os seus fatos, “5 pretas […] escravas” e pagar as passagens…

Na p. XXIX do «Prólogo» do vol. II das Poesias (datado de 1850) João d’Aboim agradece a “Maia” e outro jovem poeta as líricas “que tiveram a bondade de dedicar-me”. Tal referência, certamente, foi decisiva para estimular em Maia Ferreira uma carreira literária, tanto quanto a publicação das composições que saíram para o mercado na “Lizia Poetica, publicação já antiga nesta cidade e bastantemente lida hoje”. A publicação, Lizia poética ou coleção de poesias modernas de autores portugueses, encontra-se representada igualmente no Gabinete Português de Leitura do Recife. O tomo III, como os dois anteriores editado no Rio de Janeiro (este em 1848), traz poemas de João d’Aboim («Meus sonhos de amor» e «Do que eu gosto» (d'Aboim, 1848)), bem como cinco do nosso luandense: «Carlinda» (Ferreira, 2002 pp. 79-80), «Improviso» (Ferreira, 1980 p. 77), «A noite» (Ferreira, 1980 pp. 37-39), «Uma noite de Natal» (Ferreira, 1980 pp. 40-42), «Beleza sem amor / dedicado à Ill.ma Sr.ª / D.C.A.C.» (AAVV, 1848 pp. 266, 193-194, 242, 27, 307)[26]. No tomo IV (Ferreira, 1849) saíram ainda mais dois poemas: «Leonor» e «Revelação dum sonho» (Ferreira, 1980 pp. 33-36)[27]. No mesmo tomo, de uma publicação dedicada a “talentos juvenis” recentes (quase só portugueses), transcreve-se «A lua de Londres» de João de Lemos, a par de muitos outros poemas seus. Havendo sido João d’Aboim amigo de alguns amigos lisboetas de Maia Ferreira, e tendo apadrinhado a sua estreia poética, o nosso angolense veio a estrear-se no ambiente social e literário dominado pelo poeta e jornalista português. Daí o seu aparecimento na Lizia, onde a maioria dos publicados não era brasileira.

Outros nomes ‘revelados’ nas páginas da Lizia poética para jovens leitores foram, por exemplo, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Mendes Leal, António Xavier Rodrigues Cordeiro (um dos nomes fundamentais do Almanaque de lembranças e dos grupos ultrarromânticos), Luís Augusto Palmeirim (também amigo de Maia Ferreira), Antónia Gertrudes Pusich (de Cabo Verde e de Lisboa), José Freire e António Freire de Serpa Pimentel (este veio a conhecer e conviver com Maia Ferreira em Lisboa quando ele procurava ser nomeado Cônsul), António Pereira da Costa Jubim (brasileiro) – que dedica o poema à “criancinha” incluído no livro de Maia Ferreira e de que atrás falei.

Destes nomes, alguns se reportam a conhecidos ou amigos de Maia Ferreira, como acabo de referir. O último, hoje desconhecido, recebe em seu álbum uma composição do nosso poeta, epigrafada por Delille (cuja obra se vendia no Rio de Janeiro), apresentando uma estrutura retórica semelhante a outra glosada por João d’Aboim, por Maia Ferreira, mais tarde Faustino Xavier de Novais. O poema integrou as Espontaneidades (Ferreira, 1980 pp. 142-143).


António Freire de Serpa Pimentel (Coimbra, 20.11.1825 - Lisboa, 2.3.1900) era dois anos mais velho que Maia Ferreira. A sua lírica foi conhecida e apreciada por Álvares de Azevedo, que puxa um seu verso para epígrafe ao poema «Desalento» da Lira dos vinte anos (Azevedo, 1999 pp. 121-122). Além da lírica em verso foi também prosador, mas não se tornou famoso como escritor, antes como político, do Partido Regenerador, sobretudo nas últimas décadas do século XIX. O seu irmão, José de Freire, chegou a ser popular enquanto poeta, com a saída dos Solaus, mas não vejo ligações que o aproximem mais de Maia Ferreira do que António. António de Serpa foi objeto de uma nota biográfica muito elogiosa de Bulhão Pato, reunida a outras nas suas Memórias (Pato, 1894-1907 pp. II, 313-370) e seguida por uma autobiografia de Serpa, no final do volume dedicado aos “Homens Políticos”. Bulhão Pato será um nome incontornável para nós, conhecido na pequena sociedade literária luandense da época, objeto de sátiras mas também de muita leitura, de que terão beneficiado ainda escritores classicizantes como Augusto Bastos e Óscar Ribas. Ele pessoalmente conheceu Maia Ferreira em Lisboa, como já disse, tendo escrito um autógrafo afetuoso no seu álbum. Pertencia ao grupo de O Trovador, onde pontuava João de Lemos e no qual se destacou também Luís Augusto Palmeirim.


Luís Augusto Palmeirim foi, no século XIX, um lírico famoso, em Portugal e no Brasil (A. P. Lopes de Mendonça chega a dá-lo como o mais popular dos poetas portugueses então). Além disso, jornalista (especialmente crítico de música e de teatro) e político (deputado, mas denunciou, em «O Político», a maioria dos do seu tempo). Hoje não nos apercebemos da importância que teve o seu nome. A fragilidade e pouco viço da sua lírica, explorando campos semânticos de curto alcance e metáforas que depressa morreram, não resistiu ao juízo implacável de algumas décadas – nem ao desprezo que lhe votaram realistas e parnasianos.

Aparentando-se com a poesia de Béranger, Augusto Palmeirim procurava aproximar a escrita, ao mesmo tempo, do folclore popular (incluindo com metros comuns e rimas fáceis), das tradições portuguesas e das suas posições políticas (fez parte da revolta da Maria da Fonte e apoiou a Junta do Porto). O poeta conheceu também Maia Ferreira, expressando-lhe, num autógrafo de página e meia, a sua enfática amizade pelo nosso migrante. Além disso era outro português amigo de Gonçalves Dias (Biblioteca Nacional, 1972 p. 201).

O círculo poético mais próximo de José da Silva Maia Ferreira, em Portugal, era este mesmo, de O Trovador e de Luís Augusto Palmeirim, Bulhão Pato, António de Serpa. Tendo visitado Portugal por, pelo menos, três vezes enquanto viveu nos EUA, foi pedindo aos amigos novos e antigos (i.e., do tempo em que lá estudou, partindo de Lisboa para o Rio de Janeiro a 8 de Março de 1844) assinaturas e autógrafos num caderno para esse efeito comprado. Os nomes constantes do álbum recortam melhor o perfil social e literário no qual o poeta alicerçava as suas relações portuguesas. E por aí vemos que estava bem acompanhado e que, se não veio viver para Portugal, foi porque não quis.

Revisitemos mais alguns desses amigos e conhecidos, inseridos na comunidade literária e intelectual portuguesa.

José Maria Horta (não confundir com o quase homónimo, bem mais novo, que também teve o cargo de governador de Macau), é o que mostra conhecê-lo melhor. Ele chama o nosso poeta de “colega” e “quasi confidente, quasi íntimo”, assumindo uma chegada amizade, que não se constituiu por ocasião das visitas furtivas dos idos de 1850. Adjetiva abundante e afetuosamente o amigo, mostrando assim aquilo que os uniu: “companheiro de prazeres”, “conviva em casa, inseparável na rua […] testemunha de arrojos do coração, cúmplice nos movimentos da amizade, aliado tacitamente para tudo, por [quem] tudo era bom, colega para toda a [ilegível] de lavor, de que se compõe a vida, sócio neste trabalhoso comércio do mundo, enfim: companheiro, confrade, quase irmão”, referindo finalmente a “portuguesa […] nobreza e educação” do “possuidor deste livro” [grafia atualizada])[28]. Ainda não consegui saber onde estudava José Maria da Ponte e Horta (Faro, 1824-1892) no primeiro decénio de 40 do século XIX. Sei que foi professor e aluno da Escola Politécnica, tanto quanto Bulhão Pato (aluno) e vários outros nomes deste estreito círculo. Ter-se-á matriculado Maia Ferreira nessa escola, interrompendo mais tarde os estudos por morte do pai? Não sei, talvez pelo mesmo motivo não tenha chegado a matricular-se nela. Sei que Latino Coelho, estudante modelo e também amigo do nosso poeta (v. abaixo), se matriculou nessa escola com treze anos, pelo que Maia Ferreira, dois anos mais novo que Latino Coelho, podia ter-se matriculado lá antes de partir, atingindo o Rio de Janeiro a 19 de abril de 1844. Mas estou somente a levantar hipóteses em velocidade de brainstorming

José Maria da Ponte e Horta, que assume esta profunda amizade com o Maia Ferreira do seu tempo de estudante e seu colega, foi uma figura política importante, além de sócio da Academia Real das Ciências (e membro da respetiva direção), Lente da Politécnica, onde se tornou engenheiro, seguindo a carreira militar e política depois. Nomeado Governador de Macau (1866-1868), de Angola (1870-1873, portanto já depois de falecer o nosso poeta) e terá também sido de Cabo Verde. Além de deputado, o seu tato diplomático viu-se premiado com a condecoração pelo rei de Sião (Tailândia). Publicou três livros de temática colonial e uma Memória sobre os infinitamente pequenos, sendo considerado um teórico matemático. As suas teses científicas, um tanto poéticas e metafísicas, foram vivamente criticadas por António José Teixeira, lente de Coimbra, que desmontava, justamente, a latitude metafísica e até mística das suas conceções – além de as achar, em geral, alicerçadas sobre o vago.  Era, no entanto, mais um nome da elite portuguesa da época e um nome de peso, embora para os cargos mais importantes que desempenhou só tenha sido nomeado sobre a data da morte do seu amigo angolense e nos anos seguintes.

Outro nome a reter aqui é o de Ricardo Guimarães, um dos antigos amigos portugueses do poeta, que nos traça, resumidamente, os rasgos positivos do seu caráter: 
Quiseste um nome? Agradeço-t’o. É o do mais humilde, mas não o do menos sincero dos rapazes ao qual acolheste como amigo antigo, desde a vez primeira com que as nossas mãos se tocaram. Conheci-te sempre bom, franco, generoso e leal. A tua ausência é uma saudade. A tua [rápida] volta uma lisonjeira esperança. Digo pouco e sinto muito. [Qualidade] boa [ilegível] defeito, aceita-me como sempre me conheceste, que aceitas um amigo o qual há de ficar recompensado de volver [aos] leais afetos que lhe mereces, se ao voltares souber que atravessando as [selvá]ticas e majestosas solidões do Oceano, tu aliaste o meu humilde nome aos para ti tão queridos e afetuosos de Casal Ribeiro, Horta, Palmeirim. Dá-me tu essa lembrança e estaremos quites. A lembrança, a recordação, é a única e condigna remuneradora da saudade. Que a lembrança floresça no teu coração como a saudade pode vicejar eternamente no meu.
Trata-se, nem mais nem menos, do primeiro Visconde de Benalcanfor, três anos mais novo que Maia Ferreira (Lordelo do Ouro, Porto, 1830 – Lisboa, 1889). Escritor de várias obras: Narrativas e episódios da vida política e parlamentar – 1864; Duas palavras acerca da Revolução de Espanha – folhetim, 1868; Impressões de viagem: Cadiz, Gibraltar, Pariz e Londres – 1869; Viena e a Exposição – 1873; De Lisboa ao Cairo (scenas de viagem) e Na Itália – 1876; Leituras do Verão – 1883. Tornou-se político famoso e foi também jornalista brilhante. Estreou-se como jornalista na Estrella do Norte, segundo assevera Bulhão Pato (amigo íntimo dele desde a “mocidade”, como diz nas Memórias, tomo II, no texto sobre João de Lemos, escrito em 1890), que lhe chama “folhetim vivo e faiscante” (Pato, 1907 pp. III, 86). Chegou a destacar-se enquanto polemista e folhetinista, louvando-lhe Camilo Castelo Branco, nas suas Noites de insónia oferecidas a quem não pode dormir, aquelle florido talento que disputou a Lopes de Mendonça as galanterias do folhetim”. Camilo recorda, aliás, com saudade, os folhetins de ambos em …1854 – pouco tempo antes, portanto, das visitas de Maia Ferreira a Lisboa. Fundou, com o famoso romancista (que lhe protestava fidelidade no afeto a um dos meus mais velhos amigos”), o periódico O portuense (1853-1855).

Ricardo Guimarães tinha um perfil político semelhante ao da maioria dos nomes a que se ligou Maia Ferreira em Portugal (e desde logo a começar por João d’Aboim): liberal, colaborador de A Revolução de Setembro, depois vários cargos políticos até chegar a Par do Reino e membro destacado da Academia Real das Ciências. Enquanto estudante (de Direito, em Coimbra) integrou a revolta da Maria da Fonte alistando-se no Batalhão Académico. Tornou-se Visconde (1870-1871) graças ao seu ascendente na Corte, sendo essa dignidade criada para ele por D. Luís I. Nome completo: Ricardo Augusto Pereira Guimarães. O seu pai (José Pereira Guimarães) era um abastado proprietário e negociante do Porto, de cuja Câmara foi, várias vezes, vereador. Nestes dois pontos (a criação do título e a filiação comercial) é que a biografia de Ricardo Pereira Guimarães difere da maioria dos amigos portugueses do nosso poeta, pois a maioria deles era de linhagem fidalga. Mas a própria ascendência paterna (entre Porto e Braga) de Maia Ferreira remete para grandes negociantes (o avô paterno, também homónimo, já o era; o pai, "José Maria da Silva Maia Ferreira", assina com tal nome e enquanto negociante uma "Representação" a "Sua Magestade" contra o ex-governador Tóvar em 1821 e foi um dos maiores negociantes angolenses com casa e interesses no Brasil), para além dos postos e funções que desempenharam e que foram complementares relativamente à principal atividade: ganhar dinheiro negociando.  

Ricardo Guimarães Benalcanfor nomeia mais três “tão queridos e afetuosos” amigos antigos de Maia Ferreira. O primeiro, não falámos dele ainda, mas é fundamental: Casal Ribeiro. Casal Ribeiro e Benalcanfor tinham em comum o facto de lhes criar a monarquia um título, pois este, José Maria Caldeira, foi o primeiro Conde do Casal Ribeiro, em título outorgado pelo mesmo Rei D. Luís I (a 28.5.1870). O distinto amigo do poeta fez uma carreira jornalística e política bem sucedida, militando no Partido Regenerador em 1856 (depois de ter sido um revolucionário republicano), sendo ministro no período do rotativismo e do fácil elogio mútuo, vindo a falecer em Madrid. Ele partilhava com Maia Ferreira o facto de o pai ter ascendido rapidamente no período miguelista, saindo ambos os filhos opostos às opções políticas (ou conveniências políticas) dos pais – e talvez menos Casal Ribeiro que Maia Ferreira, que me pareceu ter admirado a república (pelo menos a dos EUA) e, seguramente, a democracia, defendida por ambos. Em 1846 ele aderiu à revolta da Maria da Fonte, alinhando assim com outros amigos e convivas do Maia Ferreira dessa época e com o mesmo João d’Aboim que apoiou o nosso José da Silva no Rio de Janeiro. O filho do Casal Ribeiro entrou em Direito em Coimbra no ano de 1842-1843, o que me leva a pensar que, na primeira metade de 1842, ele estaria ainda no equivalente aos estudos secundários em Lisboa, sendo por isso provável que Maia Ferreira estivesse em Lisboa, a realizar estudos secundários, no ano letivo de 1841-1842. Caso isto seja verdade, ele terá vivido em Lisboa três anos. O que se confirma no álbum criado por Maia Ferreira em Lisboa em 1856 é a data da sua partida anterior desta capital. A confirmação fixou-a, no começo do seu autógrafo, Bulhão Pato: “depois de uma ausência de 12 annos voltaste a Lisboa”. O autógrafo está datado de 1856…

Francisco Maria Bordalo (1821-1861) é ainda um nome a reter aqui, entre os subscritores no álbum de 1856. Jornalista, escritor e político, foi o fundador do ‘romance marítimo’ português, em que se destacou logo em 1846, com Eugénio, publicado no Rio de Janeiro (Bordalo, 1846) e mais peças, algumas reunidas no segundo volume dos Romances marítimos (o nome engana; várias dessas narrativas são crónicas desenvolvidas acerca da escravatura no Brasil e, por alguma vez, da repressão aos negreiros em Angola, que deu quase uma novela curta (Bordalo, 1880)). Foi também compositor de peças de teatro, uma das quais – Rei ou Impostor – se tornou famosa, tendo sido inicialmente censurada e apreendida. Nela Bordalo aborda, de forma provocatória, realista e ao mesmo tempo especulativa, a temática da morte do Rei D. Sebastião (Bordalo, 1847). Ele esteve em Macau entre 1849 e 1852 (durante quase todo o período Maia Ferreira estava em Angola), enquanto quadro militar e essa presença foi também motivo de composição. Mas vamos ao que diretamente nos interessa.

Em primeiro lugar, as afinidades literárias de Bordalo com Maia Ferreira são grandes, como as de quase todos os subscritores do álbum. Apesar de um ser ficcionista e dramaturgo, enquanto o angolense foi sobretudo lírico, as referências que ambos fizeram derivam tanto de ficcionistas ou dramaturgos quanto de poetas líricos, e o ambiente bibliográfico em que respiravam era o mesmo. A abrir o “romance marítimo” Eugénio, a propósito da espécie nova, ele cita Fenimore Cooper, e Eugène Sue. Cooper, encontramo-lo nos anúncios do Recife e do Rio de Janeiro e Sue nas fontes angolanas também (incluindo Luanda e Benguela). Outra referência comum foi a de Alexandre Herculano, inevitável no grupo e na lusografia da época, servindo uma epígrafe de Bordalo no Eugénio. Mas torna-se desnecessário continuar a listagem, fastidioso mesmo, pois o ambiente bibliográfico só podia ser, em maioria de títulos, um ambiente partilhado.

Um segundo lugar comum, como lembra Bordalo no álbum do seu amigo, os dois viajaram muito, passaram por muitos lugares diferentes. Mas não só: nas suas viagens ao Rio e ao Oriente, o oficial português passou muitas vezes por Angola e, durante um ano pelo menos, esteve continuamente ali vigiando o tráfico negreiro. Como sabemos, Maia Ferreira fez parte da Comissão Mista luso-britânica em Luanda (a partir de 18.12.1846 – ano em que o amigo publicara o livro no Rio de Janeiro), funções em que foi elogiado. Poderiam ter convergido mas, pelos livros de ambos, nada o sugere diretamente.

Para ambos também, a questão da escravatura era quase íntima – se não mesmo íntima no caso do nosso poeta. Ambos haviam de abordá-la com um conhecimento muito próximo da realidade do tráfico negreiro e de pontos de vista variados acerca do assunto.

Francisco Maria Bordalo abordou o problema da escravatura a partir de uma posição sui generis e, ao mesmo tempo, universalista. Escritor tendencialmente prolixo, ainda que se note algum autocontrolo, caindo facilmente nos lugares comuns das novelas da época (ainda que os critique), as composições que dedicou ao tema são diversas vezes originais ou, pelo menos, híbridas. Em primeiro lugar no que diz respeito aos aspetos técnicos e genológicos: são crónicas partindo de episódios com narrador participante – seja protagonista ou não (caso mais comum) – mas desenvolvidas por aproximações a modelos novelísticos (por exemplo o constante desaparecimento e subsequente reaparição da mesma personagem nas mais diversas e inesperadas ocasiões (Bordalo, 1880; Bordalo, 1880)), bem como por aproximação ao cânone temático do romance (que é o do amor e das peripécias a que nos conduz a sua negação), tendencialmente mantendo-se os limites, porém, dos contos para não fatigar o leitor. Estilisticamente oscila entre o diálogo muito próximo do quotidiano, alguma frase ligeiramente empolada ou alongada ou meramente retórica, a divagação reflexiva e moralizante, a descrição típica de personagens planas ou resumos sucintos, quase sem preocupação artística, a resumida narração de várias ações – enfim, estilo característico de um escritor ‘ligeiro’ (Moisés, 2006 p. 126). Original, ou pelo menos diferenciada face ao que se ia já tornando comum (nesse aspeto hoje chegámos ao limite do tópico), também foi a abordagem da problemática da escravatura: a partir de uma perspetiva universalista, relacionando as mais diversas sociedades ao longo da História e do mapa-mundo, não deixando (por isso) de referir a escravatura nos países islâmicos e no Oriente, bem como ainda em alguns países europeus, ou parcialmente europeus (caso da Rússia). A colocação do problema socorre-se de pontos de vista empíricos e divergentes, explanados em frases curtas e episódios simples, a partir de personagens próximas do autor e da sua diegese. Com tudo isso, evita a redução do tema ao tópico da cor da pele, ou seja, evita o lugar-comum que associa o escravo ao negro e o proprietário do escravo ao branco, não restringindo o problema universal (o homem que deixa de ser dono da sua vida) à circunstância epidérmica de uma pretensa disputa entre brancos e negros enquanto tais. Fala-nos, por isso, de um príncipe negro (Cabinda), sobrinho de um rei que vendia escravos aos negreiros na costa e que foi aprisionado ele também, levado para o Brasil, onde se alforriou, não querendo mais regressar a África. Por esse motivo, ainda, nos conta a estória de um escravo negro que, ganhando as graças do seu senhor (um magistrado justo mas ríspido e rígido, que morreu em Minas Gerais), herda seus bens e se torna um proprietário negro cujo património genético se mantém só com pessoas de pele negra, mas que ‘apura a raça’ de uma escrava mestiça (única filha do magistrado) até se produzir, ao correr das gerações, um escravo branco, alforriado pelo senhor negro descendente do antigo escravo e já no tempo do autor. Quer em um caso, quer em outro, os comportamentos das personagens – a primeira dinâmica (por arrependimento e por posterior recusa de regresso à terra de onde saiu sem querer), a segunda e a terceira (do senhor negro que alforriou o escravo branco e a desse escravo) estáticas – são característicos do seu estatuto social e não decorrem da cor da pele. Mostra-se, pelo contrário, que os comportamentos de classe (como diriam os marxistas mais tarde) são transversais e atitudes ou idiossincrasias atribuídas a ‘raças’ que se definem pela cor escura ou clara da pele não têm razão de ser (Bordalo, 1880). Em Eugénio ele resume a sua posição (Bordalo, 1881 pp. 100-101):

E o filantropo que emprega o dinheiro, a saúde e o talento na grande obra da repressão do trafico da escravatura, trafico infame é verdade, não se lembra que ao pé de si, quasi aos seus olhos, muitos dos seus compatriotas da sua mesma côr, gemem como os negros, porque são escravos, porque a contra gosto seu os fizeram soldados ou grumetes. Seria justo que todos os homens bons fizessem uma cruzada contra o sordido e inhumano trafico de africanos; esses estrangeiros d’uma outra côr, são todavia nossos irmãos perante Deus; mas abandonarmos os compatriotas – os brancos – para só nos lembrarmos d’aquelles, é incomprehensivel, desarrazoado, atroz!
Duas notas, para já, sobre a citação: 1) repare-se, de passagem, como o ficcionista associa o termo “compatriotas” à cor da pele (e Maia Ferreira chama compatriota a Joaquim Luiz Bastos) – “os negros” são “estrangeiros d’uma outra côr”, enquanto “os brancos” são “compatriotas”; 2) a repressão ao tráfico de escravos (isso ficaria mais claro se transcrevêssemos toda a página 100) é, mais uma vez, inserida na luta contra as desigualdades e o tratamento desumano, enfim, na luta pela justiça universal, em que se trata de libertar o homem e não de libertar o negro ou o branco.

Mas o romance Eugénio talvez tenha mais para nos dizer acerca das afinidades entre José da Silva Maia Ferreira e o seu antigo colega em Lisboa. O livro foi “delineado nos mares de Africa, começado a executar em Lisboa, continuado no Rio da Prata, e concluído no Brasil”, segundo escreve na nota introdutória de 1846, datada do Rio de Janeiro, 12 de Fevereiro desse ano (Bordalo, 1846). Como já disse e também se nota pela diegese, a costa angolana (em particular a luandense) ocupa lugar importante nesses “mares de Africa” onde o romance foi delineado. Ora, Maia Ferreira seguiu a 12 de junho de 1845, do Rio de Janeiro, para “Angola”, na “barc. nac.[29] Constança”, pelo menos a julgar pelos anúncios do Jornal do Comércio.

Scenas da escravatura, que integra o vol. II de Romances marítimos, teve primeira edição em 1854, tal como um segundo título que pode ser interessante para uma pesquisa sobre as afinidades e divergências entre os dois amigos. Uma parte significativa dos “quadros” explorados nessa e em outras sequências narrativas do autor passa-se em Angola e no Brasil em anos nos quais o nosso poeta andava, justamente, pelo Rio de Janeiro, familiares seus também por Recife-Olinda (espaços ‘brasileiros’ mais trabalhados nesses episódios). Espaços ainda principais ou importantes, nas narrativas de Bordalo, foram Luanda, Benguela, Bengo, Dande, Ambriz, em anos coincidentes com o percurso do autor das Espontaneidades, que andou por Luanda e Benguela desempenhando funções públicas até fugir para os EUA pelo Ambriz. Entretanto, pelo que li até agora e como já referi, em nenhum desses “romances”, ou em outros livros seus, Francisco Maria Bordalo se refere a Maia Ferreira, embora mostre conhecer “a mortífera Benguela” e a “capital de Angola” (Bordalo, 1880 p. 33). Nem sequer de forma indireta. Não vejo nenhuma personagem que possa representá-lo, ou que ele possa ter inspirado, exceto no episódio mais dramático de Eugénio, passado na ilha de Luanda e que podia relacionar-se com o que fez Maia Ferreira abandonar Angola. Mas Eugénio é de 1846 e Maia Ferreira abandonou a colónia bem depois. Ou será que esse episódio se passou em 1845-1846 e o que fez fugir o poeta foi outro ainda? 


Uma nota comum a vários dos testemunhos no álbum de Maia Ferreira, sobretudo a dois deles, é a de que o poeta era português. O escritor e jornalista Francisco Maria Bordalo inicia o seu autógrafo, no álbum do amigo, escrevendo: “és português. Não podes deixar de ter amor por esta nossa terra de mandriões. Eu tenho, como tu, corrido muito mundo […]”. Porque se colocava a questão? Se ele fosse mesmo português, indubitavelmente português, alguém diria essa frase nesse contexto? Porque havia o amigo de escrever: “não podes deixar de ter amor”? É, certamente, porque a dúvida em algum momento se colocou. Precisamos de situar a primeira afirmação (“és português”), assumida nesses anos pelo poeta: a presença de Maia Ferreira em Lisboa prendia-se com o objetivo de ser nomeado e reconhecido Cônsul, ou Vice-cônsul, de Portugal em Nova Iorque. Naturalmente os amigos, no álbum que assim se tornava uma autêntica arma secreta, afirmavam a portuguesia do africano dando-lhe alento e apoio para o cargo e o reconhecimento – que não logrou. Hoje, penso que talvez não tenha logrado o cargo pelas desconfianças que havia relativamente à mascarada participação dos Figanière no tráfico de escravos, além da suspeita que lhe levantaram, relativa ao tratamento de um espólio de um magnata português falecido em Nova Iorque (ele desfez realmente o enredo em que o meteram e conseguiu, em Havana, obrigar o verdadeiro culpado a devolver o que tinha roubado). Maia Ferreira trabalhou para os Figanière, como disse, deu ao seu primeiro filho ‘americano’ o nome do pai cônsul (Joaquim César) e viajou para Cabo Verde, eventualmente para o norte da costa atlântica africana também, sob os auspícios e as ordens da empresa comercial Figanière. Se havia negócios disfarçados, entre eles o tráfico de escravos para os EUA, Maia Ferreira tinha sido homem de mão de tais interesses. Isso criava reservas à sua nomeação, penso (mas nunca lhe foi dito nem ele coloca essa hipótese), vista como a continuação dos interesses dos Figanière por interposta pessoa. Pode ser que, mais tarde, conseguindo-se consultar a documentação da época e a parte do espólio que a família decidiu guardar por mais um tempo, pode ser que se confirme esta hipótese, mas a sua nomeação, ou o seu reconhecimento como Cônsul estavam irremediavelmente afetados pelas ligações aos Figanière. Tendo a sucessão do pai da família recaído em pessoas que não lhe eram simpáticas, isso coincidiu com a rejeição de Maia Ferreira para o posto. Para o rejeitaram, perante a poderosa família Figanière, usariam certamente todos os argumentos e um deles era o da sua africanidade, como também da sua ligação familiar ao 'império do Brasil'.

Tudo, porém, decorreu depois das Espontaneidades e da fuga de Angola. Ou seja: isso marcou posteriormente o homem, não o poeta que o antecedera. O poeta, em Angola, fora nomeado pelo Governador Pedro Alexandrino da Cunha para a Comissão Mista Portuguesa e Britânica até chegar o enviado para o efeito, o bacharel em Direito Luís António Baptista, nomeado pelo Rei. Maia Ferreira deu, nessas funções, provas de “precisa garantia de inteligência e probidade” (Pacheco, 1990 p. 118; Pacheco, 1992 p. 93). Foi nesse contexto que se desenvolveram as suas relações com o bacharel Eusébio Catela de Lemos Pinheiro Falcão (“famoso mulato”, segundo Arsénio de Carpo, muito influente no governo de Pedro Alexandrino). Dele escreve Carpo que morreria se mordesse a sua própria língua: “noutro tempo grande negreiro, hoje perseguidor de negreiros, apesar de dizerem-me que ainda de vez em quando entra nessa especulação” (Pacheco, 1990 p. 114)). Ou seja: Maia Ferreira ligou-se, em Angola, a vários filhos da terra mobilizados por Pedro Alexandrino para o abandono do tráfico negreiro e o seu combate, bem como apostados no saneamento da administração pública, vítima constante de redes de corrupção, tanto em Luanda quanto em Benguela. Nota curiosa, a maioria dos amigos e companheiros desse tempo, em Luanda e Benguela, eram mestiços, como por exemplo, para além do citado e conhecido Eusébio Catela, Joaquim Luiz Bastos, Manuel da Costa Carmo (a quem dedica um poema nas Espontaneidades) e Pedro Ferreira de Andrade. Mera coincidência, talvez, Andrade morreu em Benguela em 1867, deixando vários livros, entre os quais O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas. O livro, como se sabe, foi inspirado na figura do pai do escritor - outro mestiço, filho de um marquês francês e branco e de uma escrava negra ou mestiça, que se misturaram no Haiti, onde nasceu o general Dumas.


A formação literária do poeta completa a informação biográfica e se integra num quadro típico das leituras em circulação entre Lisboa, eventualmente o Porto, Luanda e Benguela, Recife e Rio de Janeiro – de que procurei sinais precisos e seguros, ainda que por sinédoques. Dando rotas concretas a uma parte significativa da lusografia, tal circuito permite compreender etimologicamente a personalidade artística de Maia Ferreira e de uma parcela da literatura subsequente em Angola.

Subsequente porque, ao determinar o que ele podia ler, estou a fazer ao mesmo tempo a sinédoque do que foi lido pelos escritores angolanos do século romântico. É certo que há diferenças biográficas significativas, ao passarmos da primeira para a segunda metade do século e de Maia Ferreira, ou Arsénio de Carpo, para Cordeiro da Mata, ou Pedro Félix Machado. Alargando a pesquisa a todo o século (no que diz respeito a Angola) terei, porém, bases seguras para generalizar as conclusões. Que não dou por definitivas.

Vídeo analisando um poema de Maia Ferreira (A minha terra) nesta hiperligação.












[1] Não consegui, até hoje, identificar com segurança esta freguesia. Pode ser mesmo em Guimarães (mas, nesse caso, pode ser problemática a integração no bispado do Porto na época. Das várias hipóteses pareceu-me particularmente sugestiva a de Bougado (São Martinho, há próximo Santiago de Bougado), na zona da Trofa, a sensivelmente meio caminho entre Porto e Guimarães. Em 1758, S. Marinho de Bougado estava parcialmente integrado na Maia, Porto. As referências, nos poucos documentos que achei, ligam mais a família ao Porto e a Gaia do que a Guimarães, de onde me parecer que deste Bougado deve ser o São Martinho referido nos assentos. Note-se, também, que a madrinha do poeta era Nossa Senhora do Porto, ou seja, de Vendôme, o que reforça a ligação ao Porto e afasta a ligação a Guimarães. Entretanto, a família Regadas, muito ligada ao pai do poeta, por negócios e por casamento da sua primeira filha com Luís de Queirós Monteiro Regadas, era natural do lugar das Regadas, em Vila Nova de Gaia, segundo Francisco Queiroz. No concelho de Vila Nova de Gaia há, na freguesia do Olival, um São Martinho, mas de Arnelas, não de Guimarães. 
[2] Os desenhos estão disponíveis na Biblioteca Nacional Digital (http://purl.pt/1031http://purl.pt/4648). Um deles é atribuído a “J. S. Maia Ferreria J.or”, outro a “Maia Junior”. O primeiro com data suposta de "[1833]" ou "ca 1833" – suposição da ficha da Biblioteca Nacional de Lisboa – o segundo com data de 1841. Dos desenhos de alunos do Lycée Parisien, que são muito poucos, e orientados por Avilez (ou Aviles) só esse primeiro tem data atribuída de “ca. 1833”, todos os outros sendo da década de 40 (a partir de 1841, se não me engano) e seguinte do século XIX. Não me parece, portanto, provável que só um tenha saído entre 1833 e 1841. De resto, o Lycée Parisien, onde “o espanhol Tryffon Avilez” era professor de litografia, só foi “fundado em 24 de Setembro de 1836” (Mesquita, 1997 pp. 123-124). Além disso, as iniciais são difíceis de confundir, ao juntarmo-las com os apelidos – e tirando o “J.or”, de resto mais usado no Brasil e nos EUA. “J. S. Maia Ferreira” será mesmo a sua assinatura mais comum ao longo da vida. De “Maia Junior” também só aparece esse desenho, o nome não se repete mais, nenhum dos alunos que nessa época publicaram desenhos se pode enquadrar na designação "Maia Junior". Ora, pelo que pesquisei, Maia Ferreira estudou em Lisboa, justamente, entre 1841 e 1844 - sendo que, neste último ano, ele regressou ao Rio de Janeiro, logo no começo (creio que partiu em Março, chegando em Abril), portanto já não estudou em 1844. Provavelmente, o retrato do Imperador D. Pedro data de 1843 e não de 1833, quando ele tinha, apenas, 6 anos e estava ainda em Luanda.
[3] Carlos Pacheco aponta o ano de 1864 para o regresso ao Brasil, mas há fontes nos EUA que remetem para a presença de Maia Ferreira ali até um a dois anos mais tarde. Nomeadamente há uma ficha de inscrição no exército, como voluntário, de alguém cujo nome e cujos dados coincidem com os de J. S. M. F..
[4] Conforme carta de “Habana” para José Horta a 4.1.1861. Por essa carta, conjugada às outras do mesmo período para amigos portugueses, concluímos que tentou por três vezes a nomeação para Cônsul ou, pelo menos, Vice-cônsul.
[5] Como se deduz da carta a António de Serpa, de Janeiro de 1861, este lhe prometera o lugar de Vice-cônsul aquando da primeira solicitação, tendo autorizado que o poeta mandasse fazer uniforme correspondente, o que ele diz ter feito.
[6] Que o nomeou em Maio de 1856, a julgar pelo que diz na carta a Emílio Aquiles Monteverde, enviada de Nova Iorque a 19.5.1860.
[7] Carta a Carvalho Moreira, datada de 18.10.1854.
[8] Carta aos redatores do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, enviada a partir de Nova Iorque e datada de 31.8.1854.
[9] V. carta a Casal Ribeiro, de 16.8.1861. Pela carta a José Horta, de 1.4.1861, escrita de “New York”, ficamos a saber que uma das acusações era feita pelo Cônsul que substituiu Figanière (Tomás Ribeiro dos Santos) e que se prendia, não com o tráfico, mas com o destino do espólio do magnata português Augusto Baptista de Oliveira, “falecido em New York a 9.6.1856”.
[10] V. carta a António de Serpa, Habana, 15.1.1861.
[11] Carta de Nova Iorque, datada de 9.4.1855.
[12] Em carta à esposa (enviada de Havana a 20.1.1861): “circumstances, my dear, dear Maggie, molds people, often differently from what they mean and intend!” (Rougle, 1991 p. 187) Isso explica mesmo toda a sua trajetória, resumida no subtítulo do artigo citado de William Rougle: “poeta angolano, correspondente brasileiro, homem de negócios americano”.
[13] Ano em que Maia Ferreira foi nomeado Secretário da Junta de Saúde e da Comissão Mista e Fontes Pereira era “Fiel do Thezoureiro”, passando provisoriamente a “Amanuense” (Governador Geral, 1846 p. 1).
[14] Nasceu em Sintra e morreu, com uma congestão cerebral, em Setúbal, a 25 de novembro de 1861. Oriundo de nobres e antigas famílias portuguesas (Soveral, 2014), foi o segundo filho de António Correa Manoel de Carvalho Aboim, Cavaleiro da Casa Real e Alcaide-mór de Cabrela, “secretario na mesa de consciência e ordens na repartição da ordem de S. Thiago” (Pereira, et al., 1904 p. 11). Começou a carreira estudando na Marinha, onde foi aspirante (1830), demitiu-se e seguiu carreira de funcionário público, tendo chegado depois a secretário da Bula da Santa Cruzada e Amanuense do Ministério do Reino, nomeado em 1838. Acabou exonerado muitos anos depois, por causa de O Peneireiro, que fundara em 1855 (saíram 25 números). Entretanto estivera no Rio de Janeiro, já fugindo a complicações políticas, mas fazendo parte da Legação portuguesa e vivendo, igualmente, dos livros que publicou. Foi empregado da Companhia de Caminho de Ferro Lisboa-Sintra (1857); trabalhou na Companhia setubalense de iluminação a gás e numa empresa particular de construção (Louis Longe) e, finalmente, na linha férrea do Sul, como fiscal do governo.
Foi cor­respondente e cola­bo­rador em diversos jornais portugueses, a maioria de Lisboa. Além de O Peneireiro, fundou em Setúbal O Improviso (1859). Colaborou tmbém em O Portuguez, Correio de Setúbal, Cysne do Sado, Curioso de Setúbal, As modas, Época e Jornal do Comércio. Publicou Devaneios Poeticos (Lisboa: 1842); Poesias (onde se in­clui O Livro da minha Alma, num primeiro volume, e Saudades da minha Terra, no segundo), que foi publicado no Rio de Janeiro, no mesmo ano em que surgiram as Espontaneidades; Os Meus Ultimos Ver­sos (dedicados à Duquesa de Palmela e com um Prólogo de Lopes de Mendonça, Lisboa: 1854); À Tarde, entra a Murta (“Alta comédia em três atos”), publicada em 1858 em Lisboa; Cada louco com sua mania, “comedia original em um ato”, (Lisboa: 1860); O Recomendado de Lis­boa, “COMEDIA original em um ato”, (Lisboa: 1860); O homem põe e Deus dispõe (em dois Atos), As nódoas de sangue  (drama em três Atos),  “Voce Vio!” (com música de M. Coelho (AAVV, sd)). Como dramaturgo foi muito popular em Portugal e no Brasil.
João d'Aboim fez ainda uma tradução de Paul Foucher (autor, entre outros, da obra — em francês — D. Sebastião de Portugal), in­titulada Wilhelmina, pequeno romance. Foi título popular ao tempo, em Portugal e Brasil.
[15] Cf. a introdução de Gerald Moser às Espontaneidades (ed. cit.), o já citado ensaio de Mário António so­bre o primeiro livro de poemas publicado em Angola e os acima referidos livros de Pacheco, nos quais a presen­ça de Maia Ferreira no Brasil, so­bre­tu­do no período em que foi amigo de João d'Aboim, é estudada até on­de as fontes o per­mi­ti­ram.
[16] Faculto, páginas adiante, mais dados biográficos sobre o ilustre parente de Maia Ferreira.
[17] Outro dos integrantes do grupo Jovem Luanda de Benguela, em que se incluiu o nosso poeta.
[18] Em carta ao irmão (“Lulú” – ou seja: Luís de Queirós Matoso Maia), datada de 8.8.1855, de Nova Iorque.
[19] Como se confirma na carta ao irmão (“Lulú” – Luís de Queirós Matoso Maia), datada de 8.8.1855 e que cito mais abaixo.
[20] Carta (crónica) aos redatores do Jornal do Comércio, localizando-se em Nova Iorque, com data de 30.9.1854.
[21] Muito provavelmente Cunha Reis, sócio dos Figanière segundo Leonardo Marques – o que se confirma pelas cartas de Maia Ferreira.
[22] Carta a M. M. Silva, na Gâmbia, escrita de Nova Iorque a 27.9.1860. Aí ele defende César Figanière (o filho) contra Cunha Reis, que teria recebido (ou se preparava para receber) uma quantia devida a todos os sócios.
[23] Carta localizando-se em Nova Iorque, com data de 9.4.1855.
[24] Carta localizando-se em Nova Iorque, com data de 30.9.1854.
[25] V., por ex., O progresso. Recife. (Julho 1846) 184.
[26] O índice indica, para o segundo poema, a p. 234 por erro; na verdade está nas páginas 193-194. O último é o poema com que fecha o Tomo. Este último poema aparece, sem a dedicatória (que dará título a outra composição das Espontaneidades), no livro do poeta (Ferreira, 1980 p. 89; Ferreira, 1980).
[27] Com epígrafe de A. F. S. Campos e Mello. Vem datado e localizado com muita precisão: “Rio de Janeiro, 18 de Janeiro de 1849”.
[28] (1824-1892) Militar e político. Foi professor na Escola Politécnica, também Governador de Macau (1866-1868) e de Angola (1870-1873) e também de Cabo Verde. Foi Deputado, Par do Reino e membro da Academia Real das Ciências e da sua direção. Terá publicado três livros de temática colonial e uma Memória sobre os infinitamente pequenos. As suas teses científicas, um tanto poéticas e metafísicas, foram vivamente criticadas por António José Teixeira, lente de Coimbra.
[29] Ou seja, nacional. Portanto: brasileira.

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