Alguma circulação bibliográfica (1855-1899)
Visto o período imediatamente anterior a Maia Ferreira (e Arsénio de
Carpo), revisto resumidamente o ambiente familiar e comercial do Recife ligado
a Angola e repensadas a biografia, a lírica e as intertextualizações de Maia Ferreira, tentei saber de bibliotecas da segunda metade do século XIX no futuro país.
Sirva de exemplo introdutório um anúncio de leilão realizado em Luanda
a 3 de Maio de 1865. Aí se notifica o público em geral que, “por ordem do sr.
Eugénio Augusto de Andrade”, se leiloavam “diversas obras literárias” num total
de “101 volumes”. Ainda sabendo que “literárias” pode não ter o significado
estrito que tem hoje, são muitas, para o que pensávamos da época e do lugar e a maioria delas provavelmente se abriga sob
o conceito estrito da arte[1]. Infelizmente, pouco mais soube sobre o “sr. Eugénio”, ou sua biblioteca,
ou livraria, ou loja, pelos vistos rica em literatura. Recolhi várias referências ao seu nome, razoavelmente bem considerado e bem posicionado em Luanda e na 'província angolense' - como então se chamava. Foi agente local do Archivo
Pitoresco. No BO 32 (1867.8.10), p. 382, anuncia que “venderá em leilão em
sua casa, largo dos Remédios n.º 21”, muitos produtos “da conta de” vários
comerciantes de Lisboa, dois do Porto e um de Hamburgo. Nesse mesmo ano, tendo
que se retirar, Isaac Amzalack deixava Eugénio Augusto d’Andrade por seu
procurador (BO 33 (1867.8.17) 393. Seria comerciante bem nutrido e contribuiu,
em outubro de 1869, com 20$000 para o “conserto da capela de N.ª Sr.ª da
Nazaré”, conforme o BO (1869.10.2), p. 473 (Urbano de Castro contribuíra com
5$000, António Félix Machado, pai de Pedro Félix Machado, com 30$000). Entre várias outras ocupações,
Eugénio Augusto de Andrade foi juiz ordinário substituto (substituiu Carlos
Augusto da Silva, pai do jornalista Carlos da Silva) em Luanda, em 1870. Um António Augusto de Andrade, cuja
relação com Eugénio Augusto não conheço, escrevia, a 4.2.1896 (ou foi essa a
data da receção da carta), para Francisco Joaquim Ferreira do Amaral, a
pedir-lhe apoio para o seu primo, Rafael Andrade, vítima (em Luanda) de uma
campanha de nativistas “e
que nem os jornais defendem”.
O subscritor localiza-se na Avenida da Liberdade, 192 (sobreloja?). A data está
escrita à mão com tinta e letra diferente.
Mas soube de outras, muitas, referências à circulação de livros entre nós.
Numa elite nascente, já não só de negociantes e filhos, se destacam
para a segunda metade do século XIX os nomes de Alfredo Troni, Urbano de Castro
e Joaquim Eugénio de Sales Ferreira como seguramente leitores informados que
possuíam bibliotecas atualizadas e ricas. Em Benguela houve talvez três boas bibliotecas em meados do século, uma de um angolense funcionário judicial, outra (a mais significativa) de um comerciante e negreiro português (o mais rico e poderoso na cidade a meio do século) e outra de um médico de Lisboa que foi viver para Ombaka (nome pelo qual também é conhecida a chamada 'cidade morena').
Quanto aos residentes em Luanda, uma vez que uma parte das suas bibliotecas integraram o acervo da Municipal, mais tarde Provincial, de Luanda, nós podemos conhecer vários dos títulos que leram. No caso de Alfredo Troni e de Joaquim Eugénio de Sales Ferreira, por ter sido ainda possível consultar obras com o seu autógrafo, geralmente incluindo local e data, as informações se tornam mais seguras e mais detalhadas.
Esses bibliófilos eram, os três, reinóis. Outras bibliotecas havia, sabemo-lo porque foram mencionadas, ou porque os textos dos autores revelam leituras consolidadas. Por exemplo
a de Cordeiro da Mata (quase toda vendida em praça depois da morte), a do cónego A. J. Nascimento e, muito provavelmente, a
de J. Fontes Pereira, colega (de trabalho) e amigo de Maia Ferreira. Mas dessas bibliotecas de filhos da terra não temos
sinais documentados que nos permitam perceber os títulos que as constituíam.
Deduz-se alguma coisa a partir das suas colaborações, sobretudo jornalísticas, mas isso nada seguro nos indica sobre as suas bibliotecas (o
facto de mencionarem um livro e um autor não implica possuírem o título; o facto de não mencionarem não significa, por outro lado, que não possuíssem título desse autor ou que não o tivessem lido). Para
o caso de Cordeiro da Mata foi possível reconstruir um leque de leituras
literárias, a partir dos poemas publicados. Um dia se completará com o de outras leituras consolidadas, a partir de um levantamento sistemático das fontes dos textos jornalísticos dos autores. De leituras de Cordeiro da Matta vou dar conta mais à frente. Antes irei de lupa em riste à procura dos três bibliófilos de que falei, depois dos poetas e, finalmente, das relações que demonstram a sua contemporaneidade.
IR PARA:
- Três bibliotecas importantes no último quartel do século XIX
- Três poetas no rio Quanza
- Pedro Félix Machado
- Leque angolense de leituras literárias
- Contemporaneidade dos poetas angolanos: poéticas em circulação
- Dois ultrarromânticos portugueses em Angola
- Além de Angola: romantismos lusógrafos
- Romantismo francês
- Romantismo inglês e... noveloso
Agradeço estes artigos e a Kicola, me estão ajudar bastante
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